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Dívidas da classe média somam mais de 6 vezes a renda mensal

por: Afonso Bazolli
em: Cobrança
fonte: Valor Econômico
02 de novembro de 2026 - 17:12

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Levantamento mostra que, levada por maior capacidade financeira, faixa de renda tem em torno de três empréstimos por CPF

O endividado de classe média tem três dívidas por CPF em média. O dado consta do estudo “Quem carrega uma dívida no Brasil hoje”, da Bravo Brasil, plataforma especializada em renegociação de dívidas e educação financeira, e divulgado ao Valor.

O universo do estudo abrange entrevistas, em agosto, com 1,5 mil clientes da Bravo, subsidiária no país da matriz de mesmo nome, que tem sede no México e está presente em seis países.

Nessa base de clientes, que concluíram o plano de renegociação sugerido pela Bravo, a renda individual mensal bruta mediana era de R$ 4,2 mil, considerado um perfil de classe média pela companhia. A partir do valor de débitos informados à Bravo, que seriam alvo de renegociação, a companhia calculou que os informantes tinham dívida mediana em R$ 24.289. Assim, é possível dizer que, até agosto, a dívida média desse perfil de entrevistado correspondia a 6,3 vezes a renda mediana mensal, segundo Renata Gonçalves Venturini, gerente comercial da Bravo.

Os dados do levantamento coincidem com informações mais recentes do Banco Central sobre o tema. No mapeamento Estatísticas Monetárias de Crédito do BC, veiculado na terça (29), a taxa de endividamento das famílias de todas as faixas de renda, não somente classe média, foi de 49,9% em julho, ante 49,7% em junho. A taxa corresponde à relação entre o estoque de dívidas das famílias com o sistema financeiro e a renda acumulada nos 12 meses anteriores. Em outras palavras, o indicador compara o valor total das dívidas existentes, em determinado momento, com toda a renda obtida ao longo de um ano.

“Se anualizarmos essa renda, chegamos a aproximadamente R$ 50,4 mil por ano. Nesse cálculo, a dívida média representa cerca de 48% da renda anualizada. Portanto, um percentual próximo dos 49,8% registrados pelo Banco Central para o endividamento das famílias”, notou ela. “A proximidade ajuda a dimensionar o tamanho do passivo observado na base da Bravo, mas não significa que os indicadores sejam diretamente comparáveis”, comenta.

Venturini explica que o BC calcula o endividamento das famílias como a relação entre o estoque de dívidas com o Sistema Financeiro Nacional e a renda acumulada nos últimos 12 meses. Já o estudo da Bravo considera especificamente pessoas que concluíram o programa de negociação da empresa e soma as dívidas cadastradas por essas pessoas.

“Quem tem renda um pouco maior é visto pelo como perfil menos arriscado”

— João Debom

“Mas o dado da Bravo mostra, dentro desse universo específico, que a dívida mediana representa praticamente metade de uma renda anual bruta. Isso reforça a dimensão do passivo que essas pessoas carregam e ajuda a contextualizar o cenário de endividamento apontado pelos indicadores mais amplos do Banco Central”, diz.

Além disso, acrescenta, todos os entrevistados pela Bravo tinham, na ocasião do mapeamento, dívidas totais acima de R$ 15 mil. A maioria não se encaixava, portanto, nos parâmetros do Novo Desenrola. Para acessar o programa federal de renegociação, há limite de até R$ 15 mil de dívida por instituição financeira.

Venturini informou ainda que foi mapeada a escolaridade dos entrevistados. Do total, 61% tinham ensino superior completo, ou pós-graduação. Assim, ponderou a especialista, a maioria tinha instrução suficiente para saber acessar educação financeira e não acumular mais de uma dívida.

Juan Pablo Zorrilla, cofundador e co-CEO da Bravo, acrescenta que um aspecto que ajudou a compor o atual cenário foi a maior capacidade de pagamento da classe média em comparação com a baixa renda. Isso facilita aceitação de mais de um empréstimo por parte de instituição financeira. “E a tendência a utilizar uma linha de crédito maior”, acrescentou. “Mas o salário não cresce na mesma velocidade que a capacidade de tomada de empréstimo desse endividado.”

João Debom, sócio da Supernova Investimentos, concorda. “Quem tem renda um pouco maior é visto pelo mercado como perfil menos arriscado. Então, essa pessoa recebe mais oferta de crédito, de variadas instituições ao mesmo tempo: desde um banco até financeira, fintech”, comentou.

O cenário é preocupante, acrescentou Debom, visto que o devedor, quando tem muitas dívidas, praticamente não tem ideia do valor total do endividamento. “Quando a dívida está espalhada em vários credores, banco, financeiras, lojas, cartões, a pessoa raramente tem uma visão consolidada”, disse. E isso conduz a um cenário de bola de neve no endividamento completo, alertou. “Quando a pessoa está endividada, acaba focando muito na parcela, e não na taxa de juros, no total da dívida.”

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