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14 de maio de 2026 - 17:12

 

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Estudo do Santander aponta que renda não comprometida com endividamento cresceu 2,4% em 2025, contra 4% do rendimento ‘cheio’

O crescente comprometimento da renda com o pagamento de dívidas, aliado à desaceleração das concessões de crédito, ajuda a explicar como o forte crescimento da renda não se traduziu em mais consumo no fim do ano passado e início deste ano, avalia o Santander.

Tipicamente, o consumo e a renda costumam andar juntos. Este, no entanto, não foi o caso de 2025, ano em que a renda bruta das famílias – que captura não apenas salários, mas pensões e benefícios sociais, aluguéis e outras formas de renda – avançou, em média, 4% acima da inflação na maior parte do ano. Enquanto isso, consumo das famílias medido pelas Contas Nacionais avançou apenas 1,3%. O Valor mostrou essa tendência em reportagem de 4 de abril (“Consumo e renda se ‘divorciam’ e intrigam economistas”).

Um fator que interfere nessa relação é o desembolso total com dívidas – juros e amortização -, que passou a subir a 12% em termos reais no fim do ano. Com isso, a renda real não comprometida cresceu apenas 2,4%, nos cálculos do banco.

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Mas não apenas: a própria oferta de crédito, cujo crescimento chegou a ser de 15% no fim de 2024, desacelerou praticamente ao longo de todo o ano seguinte e estava perto de zero em julho do ano passado.

“Na nossa visão, as condições de crédito merecem igual consideração a da renda. Se as famílias estão acessando um volume substancial de crédito novo, o poder de compra efetivo se eleva acima do que a renda sugeriria. Da mesma forma, se a renda cresce rapidamente em um ambiente em que as famílias estão fortemente endividadas, parcela significativa desses ganhos vai para o pagamento de dívidas”, dizem os economistas do Santander. “Em condições como essa, indicadores de renda podem superdimensionar sistematicamente a capacidade de consumir das famílias.”

O endividamento dos brasileiros é um tema que tem ganhado atenção crescente. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central, divulgado na segunda-feira, 117 milhões de pessoas tinham alguma dívida com instituições financeiras – métrica que não contabiliza algumas modalidades de crédito não financeiro, como contas atrasadas de luz e água e boletos de lojas. O Banco Central também estima que 29,33% do orçamento familiar estava comprometido com o pagamento de dívidas em janeiro, patamar recorde da série histórica.

Como mostrou o Valor, o tema também está no radar das campanhas presidenciais. O governo do presidente Lula finaliza uma proposta de renegociação de dívidas que, entre outros pontos, pode permitir a trabalhadores com renda até cinco salários mínimos saquem até 20% do seu saldo do FGTS no processo. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a medida deve ser anunciada após o feriado de Tiradentes, quando o presidente retorna de um giro pela Europa. Já o pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, explorou o tema em vídeos para as redes sociais com o mote “viver no Brasil está caro”.

Partindo desse pressuposto, os economistas Henrique Danyi e Gabriel Couto construíram um índice de “renda disponível ampliada pelo crédito”, que leva em consideração o crescimento anual da renda bruta real, dos novos empréstimos e do serviço da dívida. Os resultados mostram que este indicador caiu ao longo de praticamente todo o ano passado, juntamente com um crescimento firme do pagamento de dívida.

“Os pagamentos foram se acumulando desde o início de 2024 e sentenciando parte da renda. Por mais que ela permaneça resiliente, dada a desaceleração das concessões, o consumo acaba se reduzindo também”, diz Danyi.

Atualmente, no entanto, o indicador encontra-se em território “neutro”. Isso porque houve uma reaceleração das concessões de crédito, que compensou a alta do pagamento de dívidas e levou o indicador a mostrar um crescimento mais perto do próprio avanço da renda.

“Isso pode significar alguma resiliência do consumo no primeiro trimestre, e é o que parece estar acontecendo, levando em consideração os primeiros números do ano”, diz o economista, acrescentando que as projeções do Santander para o varejo e indústria em fevereiro já incorporam alguma reaceleração.

O crescimento da renda, por sua vez, não parece ter acusado a entrada dos efeitos da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Em janeiro, o crescimento real se manteve ao redor de 4,5%.

Como a concessão de crédito voltou a acelerar mesmo diante de um quadro cada vez mais complicado de comprometimento de renda? Danyi explica que, mesmo com a política monetária contracionista, a resiliência da renda permite esse movimento. “No fim do dia, enquanto os pagamentos estiverem entrando, faz sentido o sistema financeiro gerar crédito novo”, resume.

Além disso, ele nota que o crédito para a pessoa física tem se mostrado mais resiliente em algumas modalidades específicas, como cartão de crédito à vista – que inclui o parcelado sem juros -, financiamento de veículos e também a troca do crédito livre para o consignado privado. “Esta mudança, em particular, pode ser um motor da reaceleração do crédito que não é estimulativa para a economia, já que a pessoa está apenas refinanciando sua dívida”, pondera.

Danyi ressalta que o indicador de renda aumentada por crédito também acompanha melhor os movimentos tanto das vendas no varejo da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) no conceito estrito e no conceito ampliado – que inclui material de construção, comércio de veículos e partes, entre outros. Ele também explica melhor as variações dos bens sensíveis tanto à renda quanto ao crédito, na comparação com olhar apenas para a renda.

Por construção, o indicador ainda não permite antever qual pode ser o comportamento do consumo adiante, mas o comportamento de seus componentes dão alguma direção, diz o economista do Santander. “A renda deve seguir resiliente junto com o mercado de trabalho. Já o crédito deveria estabilizar perto da neutralidade ou até um pouco negativo, por causa da política monetária ainda contracionista. Porém, existe a possibilidade de que novos programas do governo possam dar um impulso a essa métrica, algo que é incerto até o momento. O comprometimento de renda com dívidas, por sua vez, deve se manter em patamar elevado. Os juros ainda altos afetam essa métrica e, mesmo com o início da queda da Selic, não vejo alívio nesse indicador até o fim do ano.”

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