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11 de maio de 2026 - 17:12

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Lula tenta conter danos, enquanto Flávio explora tema para atrair eleitores indecisos

O endividamento das famílias e a percepção de que o poder de compra diminuiu no último ano ganharam papel central na definição da estratégia das pré-campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Preocupado com o impacto negativo em sua popularidade no ano eleitoral, Lula prepara um pacote para reduzir o peso da dívida no orçamento da população. Já a pré-campanha de Flávio explora a alta do custo de vida para tentar desgastar o presidente e atrair eleitores indecisos.

Em pesquisas feitas pelo governo e pela pré-campanha petista, um dos principais problemas apontados é o alto endividamento de parte da população, que compromete a renda e reduz o poder de compra, piorando a forma como avaliam o cenário econômico.

Entre as medidas estudadas pelo governo Lula e pela pré-campanha do PT para reagir a esse cenário está a proposta voltada a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), que poderão sacar até 20% de seu saldo no FGTS para quitar dívida. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, no domingo (12), que esse será um dos pontos de um novo programa de renegociação de dívida, que prevê também desconto concedido pelos bancos e a garantia do governo para refinanciar o saldo restante, com taxa de juros pactuada ou reduzida.

A pré-campanha de Lula está em alerta sobre o endividamento e avalia que isso tem dificultado a percepção positiva sobre ações do governo, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, uma das bandeiras do presidente.

Lula tem demonstrado publicamente, em discursos e entrevistas, sua preocupação com o endividamento das famílias e o comprometimento da renda. Outro problema destacado pelo presidente são as apostas online, as chamadas “bets”, que têm ampliado ainda mais as dívidas da população. O petista defende acabar com esse tipo de aposta, mas ressalta que a decisão depende do Congresso.

Segundo dados do Banco Central, as famílias brasileiras estão comprometendo 29% da renda com o pagamento de dívidas desde outubro. É o maior percentual em 20 anos. O número de inadimplentes no país aumentou nove milhões quase dois anos depois do fim do Desenrola, programa lançado por Lula para renegociar as dívidas. Em maio de 2024, 72,5 milhões de pessoas estavam inadimplentes. Neste ano, em fevereiro, o número foi para 81,7 milhões, segundo a Serasa.

No decorrer do terceiro mandato de Lula, sucessivas pesquisas de opinião indicaram ao governo o descompasso entre os indicadores macroeconômicos e a percepção da maioria do eleitorado sobre sua própria condição financeira e sobre a condição do país. Mesmo com a menor taxa de desemprego registrada pelo IBGE em sua série histórica, a inflação dentro da meta e o crescimento do PIB, a desaprovação do governo Lula é de 51% ante uma aprovação de 44%, segundo pesquisa Genial/Quaest de março.

Nos levantamentos realizados pela Quaest desde fevereiro de 2023, apenas em dezembro daquele ano a maioria dos entrevistados (34%) disse que a economia havia melhorado nos 12 meses anteriores. Antes disso, a resposta dominante foi “ficou do mesmo jeito”. De fevereiro de 2024 até agora a alternativa “piorou” foi a mais mencionada, chegando a 56% em março de 2025.

Além do aumento do endividamento, podem contribuir para essa percepção negativa, por exemplo, o aumento do preço dos alimentos e o impacto dessa alta na renda do trabalhador, como indicaram pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Em estudo recente, o instituto identificou aumento do peso do valor da alimentação no cálculo do índice da inflação, em especial para famílias com renda de 1 a 1,5 salário mínimo.

Para o CEO do instituto Quaest e professor da Escola de Economia da FGV, Felipe Nunes, três elementos explicam o descompasso entre indicadores positivos e o sentimento das pessoas.

O primeiro é o endividamento, seja com cartão de crédito ou consignado. O segundo é o nível dos preços. “Lula prometeu picanha e cerveja e as pessoas não estão conseguindo encontrar bem-estar para vivenciar a picanha e a cerveja porque não estão conseguindo consumir esses produtos”, afirmou, em entrevista ao podcast O Assunto, do G1. O terceiro elemento, na avaliação de Nunes o mais importante, são as dívidas em sites de apostas. “Quando você mistura dívida, jogo e preço, você entende o sentimento por que a economia do número não combina com a percepção [das pessoas]”, disse.

Desenrola

O debate sobre o alto endividamento da população reapareceu agora, mas em 2022 o assunto teve espaço relevante durante a campanha presidencial. Foi quando Lula prometeu o Desenrola Brasil, para viabilizar a renegociação de dívidas de famílias que ganham até três salários mínimos. O então candidato Ciro Gomes, que enfatizou esse tema em sua campanha, propunha reduzir o pagamento de juros.

Eleito, Lula lançou o Desenrola no primeiro ano de governo, em julho, para renegociar com desconto dívidas de até R$ 20 mil, de quem ganhava até dois salários mínimos ou inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). O programa foi encerrado em maio de 2024 e, segundo o governo, atendeu cerca de 15 milhões de pessoas, negociando R$ 53,2 bilhões em dívidas.

A ação não foi suficiente para melhorar a percepção sobre a economia. Dois meses depois do fim do programa, 80% disseram que o poder de compra tinha diminuído no último ano, segundo pesquisa Genial/Quaest. Um ano antes, 63% tinham essa avaliação. De julho para cá, o percentual diminuiu, mas para a maioria (64%) ainda continua ruim, de acordo com o levantamento divulgado em março. Para 53%, sua renda não está acompanhando a alta dos preços.

Eleitor está pouco otimista

A diretora da Ipsos-Ipec, Márcia Cavallari, afirma que, até o momento, o eleitor também se mostra pouco otimista sobre o futuro. De acordo com levantamento feito pelo instituto no mês passado, apenas 33% acham que a situação econômica vai melhorar nos próximos seis meses. “O sentimento é de que os preços se estabilizaram em patamares mais elevados e já não conseguem comprar o que compravam com o mesmo dinheiro. Além disso, tem o endividamento que não contribui para o bem-estar econômico”, afirma.

Cavallari avalia ainda que, ao contrário do que parte da equipe presidencial costumava pensar, a baixa popularidade do governo não é consequência de falhas da comunicação institucional, que não estaria divulgando as ações da gestão de forma eficaz. “É um problema de percepção. Fatores como altos juros, endividamento recorde e menor poder de compra muitas vezes se tornam temas centrais no discurso político, especialmente em contextos de polarização política”, diz.

Flávio e candidatos da direita atacam

A campanha de Flávio Bolsonaro trata o custo de vida como tema fundamental para desgastar Lula e tentar atrair indecisos. Segundo auxiliares, a avaliação é que a preocupação com os preços ultrapassa fronteiras ideológicas e atinge diferentes segmentos – o que abre uma brecha para o senador avançar além dos eleitores de direita e sensibilizar os independentes.

O tema do custo de vida “dialoga com bolsonarista, lulista, pobre, classe média e rico”, nas palavras de um conselheiro de Flávio que participa das definições.

O pré-candidato do PL vai intensificar as críticas ao governo federal, apostando na retórica de que viver no Brasil está caro por culpa das políticas econômicas de Lula. O diagnóstico de estrategistas do presidenciável é que a sensação de perda do poder de consumo, somada à falta de segurança pública e à corrupção, contribui para um “mal-estar” das pessoas. As três questões aparecem em pesquisas entre os problemas que mais preocupam os brasileiros.

A mensagem de que “viver no Brasil está caro” foi explorada por Flávio, na semana passada, em um vídeo para redes sociais que inaugurou uma nova fase na pré-campanha do senador, com materiais produzidos por profissionais de comunicação. Ele prometeu, caso eleito, reduzir impostos, aumentar a eficiência do Estado e garantir liberdade econômica para empreendedores.

A equipe de Flávio enxerga o custo de vida como uma “pauta transversal” e entende que, embora a economia seja historicamente um fator relevante em eleições, o diferencial desta vez é o impacto direto no bolso da população. No vídeo, o pré-candidato disse que “o brasileiro não vive de índice”, para rebater o discurso governista de que os dados de emprego e do PIB são positivos.

Uma das opiniões que circulam no entorno de Flávio é a de que parte do eleitorado se frustrou com a promessa de “picanha e cerveja”, apresentada por Lula na campanha de 2022 para simbolizar uma melhora nas condições de vida. A ideia agora é tentar explorar esse sentimento de decepção, associando o governo a práticas como descontrole de gastos e criação de impostos.

O PL e deputados do partido reforçam as narrativas do presidenciável, com conteúdos no ambiente digital sobre preços de combustíveis e outros temas de apelo popular. Apesar dos efeitos da guerra no Oriente Médio, a estratégia será colocar a culpa na gestão federal, segundo interlocutores de Flávio – a linha é a de que o governo deixou o Brasil despreparado para enfrentar turbulências internacionais. Os bolsonaristas dizem que houve “gastança” na atual gestão.

Outros candidatos do campo da direita também decidiram, para fustigar Lula, atacar o custo de vida. Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, pretende capitalizar a insatisfação dos brasileiros com a dificuldade de “fechar a conta no fim do mês”, como afirmou seu marqueteiro, Renato Pereira, em entrevista ao Valor.

Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, cita o endividamento das famílias para criticar Lula e já disse esperar que a eleição sirva para discutir “a vida como ela é”, ou seja, os problemas do dia a dia dos eleitores.

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