
O aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro tem acendido um alerta entre produtores, instituições financeiras, fornecedores e investidores. Em meio a um cenário marcado por endividamento elevado, custos de produção em alta, restrição de crédito e impactos climáticos recorrentes, o setor registra crescimento expressivo nos processos de insolvência. O tema ganhou ainda mais relevância após a publicação do Provimento nº 216/2026 do Conselho Nacional de Justiça, que estabelece novas diretrizes para recuperações judiciais envolvendo produtores rurais, ampliando as exigências de transparência, fundamentação técnica e robustez documental.
Para Marcello Guimarães, presidente da SWOT Global, diretor do Instituto Brasileiro de Direito da Empresa, o avanço das recuperações judiciais revela problemas que vão além das oscilações conjunturais do mercado. “Grande parte das crises que chegam ao Judiciário não surge de forma repentina. Elas costumam ser precedidas por falhas de governança, concentração excessiva de riscos, expansão sem planejamento adequado e ausência de mecanismos consistentes de monitoramento financeiro. O crescimento das recuperações no agro mostra a necessidade de uma gestão mais estruturada e preventiva.”
A nova regulamentação também aumenta a responsabilidade de empresas e produtores na apresentação de informações econômicas e financeiras capazes de demonstrar a real situação dos negócios. Especialistas avaliam que o movimento tende a fortalecer a segurança jurídica dos processos, ao mesmo tempo em que amplia a importância de auditorias, avaliações de viabilidade, diagnósticos operacionais e análises independentes para subsidiar decisões de credores, investidores e do próprio Judiciário. O cenário ocorre em um momento de crescente preocupação do mercado com os riscos associados ao crédito rural e aos impactos das recuperações sobre toda a cadeia produtiva do agronegócio.
Nesse contexto, Marcello Guimarães acredita que o debate precisa avançar para além da recuperação de empresas em crise e focar cada vez mais na prevenção. Segundo ele, “as novas exigências do CNJ representam um passo importante para qualificar os processos de recuperação judicial, mas o principal desafio continua sendo identificar os sinais de deterioração financeira antes que a insolvência se torne inevitável. Empresas que investem em governança, gestão de riscos, controles financeiros e avaliações periódicas tendem a construir operações mais resilientes e preparadas para enfrentar ciclos econômicos adversos.”
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