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21 de junho de 2026 - 12:12

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Avaliação é que programa de renegociação de dívidas para esse público mudaria estrutura do mercado, com aumento do prêmio de risco e do spread bancário, o que resultaria em juros mais altos em empréstimos com recursos livres

Representantes do setor bancário avaliam com preocupação a proposta do governo de lançar uma linha do Desenrola para brasileiros com dívidas em dia. A avaliação é que um programa de renegociação de dívidas para esse público vai alterar a estrutura do mercado de crédito, com aumento do prêmio de risco e do spread bancário, o que, ao final, resultaria em taxas de juros mais elevadas para os empréstimos com recursos livres, segundo interlocutores do setor ouvidos pelo Valor.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o governo pretende lançar ainda em junho a nova fase do Desenrola para dívidas adimplentes. Como mostrou o Valor, a ideia da equipe econômica é fazer uma renegociação mais segmentada, focando apenas nas dívidas com juros mais altos, como cartão de crédito e empréstimo pessoal. O público-alvo deve ser mais restrito quando comparado ao Desenrola para dívidas inadimplentes.

Em nota enviada ao Valor, o Ministério da Fazenda afirmou que vem discutindo soluções que possam gerar “algum benefício a pessoas físicas adimplentes, especialmente aquelas que não possuam vínculos empregatícios formais ou garantias que permitam acessar linhas com taxas de juros mais equilibradas (atualmente esse público por vezes se depara com taxas de juros anuais acima de 100%)”.

“Não há definição de soluções finais e, quando houver, será levada ao Presidente da República para análise e deliberação. No mais, o Ministério da Fazenda reforça que sua atuação na atual gestão caracteriza-se fortemente pelo diálogo e cooperação visando equilibrar os diferentes interesses legítimos, mas sempre buscando assegurar que a política pública a ser adotada beneficie aqueles que mais precisam”, diz a pasta na nota.

A avaliação do setor bancário é que programas de renegociação de dívidas devem se concentrar em devedores inadimplentes, especialmente aqueles com dificuldades efetivas de pagamento. Isso porque os dois lados têm interesse em resolver o problema: a instituição financeira, que não consegue receber e está registrando em seu balanço uma operação com 100% de provisão, ou seja, com prejuízo; e o devedor, que não consegue pagar e fica com o “nome sujo”, sem ter acesso a crédito novo.

O lançamento de uma renegociação para adimplentes criaria incentivos negativos ao mercado de crédito, explicam interlocutores do setor. “O crédito é estruturado para ser pago. Se houver a percepção de que, em algum momento, operações adimplentes poderão receber descontos ou reduções de juros, isso altera toda a lógica de precificação do risco”, afirmou um interlocutor. “Isso vai fazer com que o setor financeiro crie mecanismos que possam mitigar e proteger esse risco futuro”, completa.

Um risco imediato seria o agente que concede crédito aumentar o prêmio de risco dele, porque não sabe quando o Estado pode voltar a lançar um programa que permite a renegociação de dívidas que estão em dia. Isso, explica uma fonte, aumentaria o custo de captação dos bancos, porque as instituições financeiras passariam a embutir um prêmio de risco diante da possibilidade de alteração da rentabilidade dos contratos ao longo da operação. O cenário seria mais preocupante para as instituições financeiras de menor porte, que têm custos de captação mais elevados.

Ao final, a linha pode ter o efeito oposto do desejado pelo governo, aumentando o spread bancário e o setor embutindo esse custo nas taxas de juros, dizem interlocutores.

Outro risco é que a linha para adimplentes estimule a inadimplência, ou seja, que as pessoas já comecem a deixar de pagar suas dívidas, devido às notícias de que o governo vai lançar um programa de renegociação.

Nos últimos anos, a inadimplência da carteira de crédito de pessoas físicas com recursos livres chegou a, no máximo, 7%. Ou seja, 7% do total dessa carteira estava com dívidas inadimplentes, enquanto 93% estavam pagando em dia. Para interlocutores, um programa para adimplentes aumenta o risco de os “7% virarem 10%”, ou seja, de aumentar o percentual da carteira de clientes que deixam de pagar dívidas em dia.

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