
A expansão monetária que barateia o crédito distorce investimentos, alimenta bolhas em tecnologia e, quando a conta chega, destrói empregos
A inteligência artificial está rapidamente se tornando uma das indústrias mais intensivas em capital da história. Considerem esses fatos: fábricas de semicondutores custam dezenas de bilhões de dólares. Enormes centros de dados consomem quantidades extraordinárias de eletricidade, aumentando consideravelmente as contas de energia. Talentos de engenharia altamente especializados recebem salários elevados. (Embora o salário médio de um profissional de IA seja de US$ 160 mil por ano, o 1% mais bem pago dos pesquisadores em IA recebe pacotes de compensação que ultrapassam US$ 1 milhão). Cadeias globais de suprimentos precisam coordenar materiais raros, manufatura de precisão e infraestrutura complexa.
Ainda assim, as discussões sobre inteligência artificial quase nunca abordam a variável econômica mais importante que molda seu desenvolvimento: o dinheiro.
De uma perspectiva austríaca, o futuro da inteligência artificial está diretamente ligado ao sistema monetário que a financia. Se a IA produzirá prosperidade sustentável ou mais um ciclo de boom e colapso depende menos dos algoritmos do que das taxas de juros.
Como temos visto ao longo da história, as taxas de juros em um sistema bancário de reservas fracionárias tendem a cair cada vez mais quando uma nova tecnologia começa a se desenvolver. Isso gera a ilusão de prosperidade chamada boom, seguida inevitavelmente por um colapso e contração da economia (chamada de bust).
Como lembrete do que se entende por um colapso (bust), tenha em mente o número de US$ 16,2 trilhões — “o total do patrimônio líquido que as famílias americanas perderam entre 2007 e 2009 durante a Grande Recessão”.
A inteligência artificial é melhor compreendida, do ponto de vista econômico, como um bem de capital de ordem superior — uma ferramenta que aumenta a produtividade do desempenho humano. Assim como as máquinas durante a Revolução Industrial ou os computadores no final do século XX, a IA opera dentro de um processo produtivo estruturado no tempo, envolvendo múltiplas etapas antes que bens de consumo surjam. Aqui é possível ver como o ChatGPT funciona como um bem de consumo, por exemplo, oferecendo uma ferramenta de pesquisa indispensável para milhões.
O laureado com o Prêmio Nobel F.A. Hayek enfatizou que a produção requer a coordenação de conhecimentos dispersos ao longo do tempo. As taxas de juros servem como o sinal crítico que alinha poupança e investimento. Quando esse sinal é distorcido, a estrutura de capital torna-se desalinhada.
A inteligência artificial oferece um desempenho intelectual extremamente avançado, mas, como bem de capital, ainda está sujeita aos sinais das taxas de juros. Economicamente, sob nosso sistema de moeda fiduciária controlado por bancos centrais, taxas de juros distorcidas intensificam o desalinhamento do capital.
A relevância negligenciada do sistema monetário
O atual boom da IA está se desenrolando após mais de uma década de expansão monetária sem precedentes. Após a crise financeira de 2008 — e novamente após 2020 — o Federal Reserve expandiu dramaticamente seu balanço patrimonial enquanto mantinha taxas de juros próximas de zero por períodos prolongados. O Fed vem reduzindo esse balanço desde seu pico em abril de 2022, mas ele ainda permanece 59% acima dos níveis pré-pandemia.
No mundo da economia do Federal Reserve, o crédito barato é um combustível necessário para o desenvolvimento econômico. Mas, como advertiu Mises,
“O que leva um empreendedor a iniciar determinados projetos não são preços altos nem preços baixos em si, mas sim uma discrepância entre os custos de produção, incluindo os juros sobre o capital necessário, e os preços antecipados dos produtos. Uma redução da taxa bruta de juros de mercado, provocada pela expansão do crédito, sempre tem o efeito de fazer com que alguns projetos pareçam lucrativos, quando antes não pareciam” [ênfase adicionada pelo autor do artigo original].
Quando o Fed suprime artificialmente as taxas de juros, os empreendedores iniciam projetos que parecem lucrativos, mas que não podem ser sustentados quando as condições monetárias mudam. Este é o cerne da teoria austríaca dos ciclos econômicos: a expansão do crédito causa investimentos ruins (conhecidos como malinvestiments).
O investimento em inteligência artificial é particularmente vulnerável a essa dinâmica porque envolve horizontes de tempo longos, demanda incerta e enormes requisitos iniciais de capital.
Sinais de alerta de malinvestiments
Diversos sinais familiares já são visíveis:
Fluxos maciços de capital para startups de IA com modelos de receita incertos, com a IA capturando “quase 50% de todo o financiamento global em 2025, acima dos 34% em 2024”;
Avaliações extraordinárias impulsionadas por expectativas futuras, em vez de lucros presentes;
Expansão acelerada da infraestrutura de centros de dados antes da comprovação da demanda, com a capacidade global projetada para dobrar até 2030;
Investimentos em energia justificados principalmente pelo crescimento projetado da IA.
Revoluções tecnológicas frequentemente coincidem com manias especulativas. Os booms ferroviários do século XIX, os excessos do mercado de ações na década de 1920, a bolha das empresas ponto-com dos anos 1990 e o boom imobiliário anterior a 2008 seguiram todos esse padrão. Em cada caso, a tecnologia sobreviveu, enquanto a estrutura de capital especulativa colapsou. A inteligência artificial pode seguir uma trajetória semelhante se as condições monetárias continuarem a distorcer os sinais de investimento. Enquanto o dinheiro estiver sob o controle monopolístico de nomeados políticos, em vez do livre mercado, a distorção é garantida.
O ouro historicamente restringia a expansão do crédito porque os bancos não podiam criar reivindicações ilimitadas sem arriscar a ira de depositantes lesados. As taxas de juros refletiam de forma mais precisa a poupança real, e a disciplina de investimento era mais forte.
Sob um sistema monetário ancorado por forças de mercado, em vez de políticos em disputa, a inteligência artificial se desenvolveria de maneira mais alinhada com a demanda genuína e menos vulnerável a colapsos especulativos.
Conclusão
A inteligência artificial provavelmente se tornará a tecnologia mais transformadora da história, mas, sob os auspícios de um falsificador monetário impressor de moeda como o Federal Reserve, é certo que criará enormes problemas econômicos. A verdadeira ameaça é o crédito artificial, não a inteligência artificial.
As pessoas têm razão em temer a perda de empregos. O que realmente ameaça os trabalhadores, porém, não é a automação, mas a distorção monetária. Quando a expansão do crédito impulsiona booms especulativos, o capital é direcionado para empreendimentos insustentáveis. Quando chega a correção, os trabalhadores sofrem as consequências de decisões tomadas muito acima deles. E tendem a direcionar sua raiva ao mercado, em vez de aos tomadores de decisão influenciados politicamente.
Ron Paul estava certo. Precisamos acabar com o Fed e pôr fim às violações de direitos de propriedade causadas pelo sistema bancário de reservas fracionárias.
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