
A menos de três meses do fim do Plano Safra 2025/26, ainda há R$ 70 bilhões em recursos equalizáveis disponíveis, 62% do total ofertado
A menos de três meses do fim da temporada, médios e grandes produtores ainda têm à disposição cerca de R$ 70 bilhões em recursos equalizáveis (com juros subsidiados pela União) do Plano Safra 2025/26. Segundo especialistas, o aumento da inadimplência no campo, que acentuou a aversão dos bancos a risco na concessão de crédito, e mudanças nas regras de distribuição de parte desses recursos são as principais razões para o represamento dessas linhas.
Os R$ 70 bilhões correspondem a 62% do montante total de recursos equalizáveis disponibilizado no início da safra (R$ 113,4 bilhões) para esse público. Apesar de ser o financiamento mais barato, o valor está “empoçado” em bancos e cooperativas de crédito. Algumas instituições estão “devolvendo” recursos, disse uma fonte do sistema financeiro.
A aversão ao risco é uma das principais causas da não aplicação do dinheiro equalizado, segundo Rogério Boueri, consultor da Sapeba Agroambiental e ex-secretário de Política Agrícola e Negócios Agroambientais do Ministério da Fazenda.
“Na minha visão, as instituições financeiras estão apertando as avaliações de crédito em virtude do alto nível de inadimplência e de recuperações judiciais no setor. Isso está dificultando as concessões”, disse ao Valor. “Pode ser que as instituições prefiram enfrentar os problemas que poderão ter com o Banco Central do que perder recursos por inadimplência”.
Nas linhas de custeio, a sobra é de 61%. Foram concedidos até agora R$ 24,7 bilhões de R$ 63 bilhões programados. Nos investimentos, o saldo é de 63%. Bancos e cooperativas de crédito emprestaram R$ 18,4 bilhões nos nove primeiros meses da safra 2025/26 dos R$ 49,5 bilhões reservados para isso.
Uma fonte graduada do sistema financeiro disse que o principal fator para essa trava no crédito equalizado é que os bancos e cooperativas estão mais seletivos diante da onda de endividamento e inadimplência. Há também críticas quanto ao desenho do Plano Safra atual, que teria direcionado muito dinheiro para pequenos e médios produtores e dificultado a aplicação do montante total anunciado.
Outro fator que influenciou, disse a fonte, foi a nova regra que obrigou cooperativas de crédito a aplicarem 6% dos depósitos à vista no crédito rural a partir da safra 2025/26. Essa medida pressionou cerca de R$ 6,5 bilhões que antes poderiam ser emprestados via linhas equalizadas, sobretudo com valores captados da poupança rural ou Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Na safra 2026/27, o percentual vai subir para 13%.
A avaliação é que os bancos, e agora as cooperativas financeiras, preferem cumprir as exigibilidades de aplicação desses recursos antes, o que resulta na sobra das linhas equalizadas. Com isso, há perspectiva, inclusive, de economia para o governo, que não gasta tudo que havia orçado para subvencionar parte dos juros. A previsão orçamentária para custear o Plano Safra 2025/26, ao longo de vários anos, é de R$ 13,4 bilhões.
Com uma sobra de recursos de forma geral, o sistema financeiro tem trabalhado na saída de carteira atual, resumiu a fonte.
Balanço divulgado pelo Ministério da Agricultura mostra que a Caixa executou 28% dos recursos programados para linhas equalizadas de investimentos rurais nesta safra, com concessão de R$ 828 milhões em nove meses. No Banco do Brasil, a execução está em 39% (R$ 7 bilhões). O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), principal repassador de recursos, executou 36% do programado, com R$ 6,4 bilhões concedidos até março.
Nas linhas de custeio, o cenário é parecido. Apenas a Cresol executou todo o montante programado até agora, de R$ 3,1 bilhões. No Sicredi, a execução está em 32%.
José Carlos Vaz, consultor jurídico do agronegócio e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, disse que o apetite dos bancos está sob efeito de “mounjaro” devido à alta no endividamento no campo e ao comprometimento de boa parte da carteira de crédito com prorrogações e renegociações.
Segundo ele, o governo pode adotar alguns caminhos. Um deles é guardar o dinheiro que eventualmente sobre para o próximo Plano Safra, até por conta dos gastos com as prorrogações. O orçamento é usado na equalização dos juros.
Outra sugestão é rever as regras dos recursos controlados para aumentar os limites de custeio para segmentos como cana, bovinocultura de corte, madeira e celulose, liberar o financiamento da aquisição antecipada de insumos para a safra 2026/27 e financiar tradings que adquirirem Cédulas de Produto Rural (CPR) da safra 2026/27 diretamente de produtor e cooperativa.
Para Vaz, há espaço também para aumentar os limites de custeio e de capital de giro com recursos controlados nas operações com cooperativas e elevar os limites e parâmetros de contratação de custeio pelas empresas integradoras com os recursos controlados.
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