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BNP vai crescer com ‘seletividade’

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
02 de novembro de 2026 - 17:12

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Em meio a um cenário de crédito desafiador, instituição diz que pode seguir com avanço perto de 10% e que Brasil continua atraindo investimento estrangeiro

O BNP Paribas cresceu cerca de 10% ao ano no Brasil nos últimos cinco anos e o CEO, Ricardo Guimarães, acredita que é possível manter um ritmo próximo a esse nos próximos anos. O grupo francês vai divulgar seu novo planejamento estratégico no início do ano que vem e a operação brasileira deve seguir ganhando relevância, mesmo em meio a um cenário de crédito mais difícil por aqui.

O banco teve lucro de R$ 86,5 milhões no primeiro semestre, considerando apenas o que fica registrado no balanço do Brasil, uma alta de 246% ante o mesmo período do ano anterior. A receita de intermediação financeira aumentou 278%, a R$ 1,336 bilhão, e o banco terminou o período com R$ 58,679 bilhões em ativos.

“A economia este ano surpreendeu positivamente e isso se traduz em uma atividade mais forte para o banco. Mudou um pouco a composição desse resultado. Ano passado era muito mercado de capitais local que estava expandindo, este ano o mercado de capitais local teve uma atividade mais fraca por conta dos juros altos e também pelos casos de recuperações judiciais, extrajudiciais que a gente está tendo”, diz Guimarães.

“E aí você teve um foco maior no mercado internacional, na mesa de operação. Toda a volatilidade dos mercados globais, com os problemas geopolíticos, trouxe uma atividade interessante para a gente”, completa.

O BNP tem uma exposição mais forte a setores ligados à infraestrutura e energia (geração, distribuição e transmissão), mas acabou envolvido em algumas reestruturações importantes, como da Raízen, e também outras companhias que têm buscado se desalavancar, caso da CSN. Guimarães não releva o tamanho exato dessas exposições, mas ressalta que consegue absorver o aumento de provisão e ainda assim crescer o lucro no período. “Com todo esse número de recuperação judicial, extrajudicial que está acontecendo, acho que não tem nenhum banco aqui no Brasil que pode dizer que passou ileso”.

O executivo diz ver com bastante preocupação o cenário de crédito para 2027, de forma geral, e não de grandes nomes específicos. Ele ressalta que o contexto atual é de endividamento recorde e elevado comprometimento de renda, tanto de famílias como empresas, e isso em um ambiente de atividade ainda forte e desemprego nas mínimas.

“Imagina se o começo de 2027 for de atividade mais fraca, como quase todo mundo prevê, com aumento do desemprego. Aí eu acho que realmente você pode ter um choque de crédito mais espalhado”, afirma.

Nesse quadro, ele explica que o nome do jogo é “seletividade”. “Acho que a seletividade é importante nesses momentos. Escolher bem os nomes, setores, produtos”.

Segundo Guimarães, é possível seguir crescendo quase 10% mesmo com esse pano de fundo mais desafiador. Em março, o Banco Central (BC) autorizou o BNP a criar uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), com capital social de R$ 8 milhões. Segundo o CEO, a decisão representa um passo relevante na estratégia de crescimento do banco no Brasil e abre espaço para a ampliação do portfólio local de produtos e serviços.

“Neste primeiro momento ela vai focar muito em fazer custódia para investidor estrangeiro. Estamos aguardando a aprovação da CVM para começar essa operação. E depois a gente vai adicionando outros produtos e serviços até ter uma plataforma de equity [ações] que faça execução aqui no Brasil. Aí depois a gente vai discutir quão profundo vai ser isso, se a gente vai ter research etc”.

Guimarães ressalta que essa expansão independe de uma eventual retomada nos IPOs e que a bolsa brasileira é relevante globalmente. “Independentemente do ciclo, se a bolsa sobe ou cai, sempre tem uma participação relevante de estrangeiros dentro desse mercado. O Ibovespa está dentro de vários índices globais, então todos os gestores de recursos têm um braço de atividade aqui”.

Globalmente, o BNP lançou seu planejamento estratégico no início de 2022, batizado de GTS (ciclo em inglês para crescimento, tecnologia e sustentabilidade). Nos próximos meses, deve lançar um novo plano plurianual. O grupo não revelou publicamente as metas para o Brasil, mas Guimarães diz que todas foram atingidas. “No plano de 2026, as metas que a gente tinha estabelecido para o Brasil, entregamos; teve um crescimento até um pouquinho acima”. Ele diz que a operação brasileira já tem uma plataforma bem diversificada e é relevante para o grupo francês. No ano passado, foi feito um aporte de € 120 milhões (cerca de R$ 773 milhões) na subsidiária brasileira.

Sobre o cenário para a economia brasileira, Guimarães diz que naturalmente a eleição deve trazer algum ruído, mas que em geral os principais candidatos admitem a necessidade de responsabilidade fiscal e que o fato do País ter um BC independente ajuda a suavizar a volatilidade no câmbio. Além disso, ressalta que o Brasil pode se beneficiar do contexto global, inclusive da demanda por data-centers. “Às vezes a gente tende a olhar os problemas intrínsecos e esquecer, em termos relativos, como é que o Brasil se posiciona. [...] ‘Ah, tem um problema fiscal’, mas os EUA também têm um problema fiscal, a França, o Japão. Acho que no longo prazo o Brasil continua atraindo investimento e talvez o melhor termômetro é o investimento estrangeiro direto do que o fluxo para a bolsa ou dívida. E o investimento direto continua positivo”.

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