
O Banco de Brasília (BRB) chegou a um acordo com uma gestora para estruturar um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) que ficará com boa parte dos ativos que a instituição herdou do Banco Master. Em entrevista ao Valor, o presidente-executivo (CEO) do BRB, Nelson de Souza, explicou que o veículo deve ficar pronto em até 30 dias e vai resolver o problema de liquidez do banco.
Souza disse que o BRB estima os ativos que herdou do Master em R$ 21,9 bilhões. O banco está negociando a venda de alguns créditos individuais, que somam cerca de R$ 1,9 bilhão. Assim, sobram aproximadamente R$ 20 bilhões que serão destinados para o FIDC. A gestora em questão, que o banco não revela o nome, vai ficar com R$ 4 bilhões em cotas sênior, que é o dinheiro que vai entrar para o caixa do BRB. Além disso, vai buscar investidores para outros R$ 11 bilhões em cotas subordinadas.
“Realizamos reuniões com investidores em São Paulo, inclusive com a presença da governadora Celina Leão, representando o controlador do banco. Uma gestora fez uma proposta firme, assinamos um acordo de confidencialidade e vamos estruturar esse FIDC. Isso vai melhorar o balanço do BRB, porque a gente não vai ficar com esses ativos sangrando dentro de casa”, comentou.
Segundo Souza, apesar de o FIDC ajudar a resolver o problema de liquidez do banco, o BRB e o governo do Distrito Federal (GDF) seguem trabalhando em opções para levantar capital. Souza diz que a possibilidade de criação de um fundo imobiliário (FII) com imóveis do GDF ainda existe, mas admite que ela pode não sair em tempo hábil. “Ainda existe condição, mas do jeito que está judicializada a questão, não vai rolar no curto prazo, e não podemos ficar esperando.”
Assim, o CEO diz que o GDF, que já tinha feito um pedido de empréstimo ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 4 bilhões, solicitou agora mais R$ 2,6 bilhões, totalizando assim R$ 6,6 bilhões. Souza destaca que a ideia é que o fundo não entre sozinho, mas juntamente com um consórcio de bancos. “Fizemos reuniões com praticamente todo os bancos S1 [classificação adotada pelo BC para o grandes bancos do País]. Os pedidos de empréstimos já estão em tramitação.”
Caso consiga o empréstimo, o GDF deve utilizar o dinheiro para participar do aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões a ser votado em assembleia geral extraordinária (AGE) no próximo dia 22. “Temos o prazo máximo até 29 de maio para integralizar o capital”, diz Souza.
“Fizemos reuniões com praticamente todos os bancos S1. Os pedidos de empréstimos estão em tramitação”
— Nelson de Souza
A governadora do DF afirmou em nota que a proposta do FIDC será formalmente encaminhada ao Banco Central (BC), responsável pela análise técnica e regulatória. Leão ressaltou que a negociação não envolve aporte de recursos públicos nem compromete o caixa do banco, sendo “conduzida com responsabilidade e foco na preservação dos interesses do Distrito Federal”. “A governadora Celina Leão destaca que o interesse de investidores qualificados reforça a credibilidade do Banco de Brasília”, diz. Um dia antes, ela tinha afirmado, ao sair de uma reunião com o BC, que o BRB “não vai quebrar”.
Apesar de o BRB estimar em R$ 21,9 bilhões os ativos que recebeu do Master, esse valor é considerado muito alto por outros players do mercado. No balanço do banco de Daniel Vorcaro, eles estavam contabilizados por R$ 14,5 bilhões, e como o BRB aplicou um deságio médio de 14,5% ao recebê-los, foram avaliados na ocasião em R$ 12,8 bilhões. Esse pacote é formado por 25 itens, sendo os de maior valor uma carteira do Credcesta (cartão consignado), de R$ 2,7 bilhões; cotas dos fundos Naples e Kyra (que investem basicamente em ações da Ambipar), de R$ 1,6 bilhão; rotativo de cartão do Will Bank, de R$ 1,1 bilhão; carteira de Pix/compras, de R$ 770,4 milhões; e o fundo Tessália, que investe em Oncoclínicas, com R$ 537,0 milhões.
Fontes do setor financeiro apontam que poucas gestoras teriam condições de estruturar um fundo desse porte em pouco tempo, e que, muito provavelmente, precisa ser alguém com experiência em ativos estressados. “É estranho o governo do DF divulgar isso dessa forma, dizendo que vai receber R$ 15 bilhões, falando em ‘instrumentos financeiros atrelados aos próprios ativos negociados’. Fiquei com a impressão que essa parcela de R$ 11 bilhões está ligada a algum tipo de earn-out [estrutura em que o pagamento depende do desempenho futuro dos ativos]”, comenta o gestor de um grande banco.
Outro interlocutor diz que a estrutura do FIDC proposta pelo BRB faz sentido, porque diminui a retenção de risco e, consequentemente, a alocação de capital. Isso poderia reduzir a necessidade de provisões e também levar a um aporte de capital mais suave. “A base para cálculo da exigência de capital e de provisão é o ativo. Se o ativo diminui, porque você transfere para um fundo, essas exigências têm de diminuir também. Mas é óbvio que existe uma discussão sobre o nível de subordinação, porque isso define a transferência ou retenção de risco.”
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