
Momentos em que o mercado está aquecido são mais propícios a desalinhamentos de interesses
Os pedidos de recuperação extrajudicial (RE) de Raízen e Grupo Pão de Açucar (GPA), ambos feitos no dia 10 de março, não chegaram a causar perplexidade, mas criaram uma aura de apreensão sobre os próximos casos que podem estar por vir.
O caso de Raízen, em especial, causou certo espanto devido ao montante que alcança a cifra de R$ 65 bilhões, até aqui a maior recuperação extrajudicial da história e cerca de 3 vezes a segunda maior, a da Intercement em 2024. De acordo com dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (OBRE), somente Raízen já alçou o ano de 2026 ao recorde em valor de RE, enquanto o ano de 2025, até o momento, ainda se mantém como recordista em número.
A explicar este quadro de dificuldade das companhias brasileiras podemos listar as modestas taxas brasileiras de crescimento, produtividade estagnada, taxas de juros reais elevadas por longo período e, com certeza, problemas específicos de gestão estratégica e financeira. Este momento complicado acontece justamente quando o mercado de capitais cresce com força e vem assumindo a liderança no financiamento das empresas, o que causa certa preocupação em relação aos investidores.
Empresas recorrem ao mercado de capitais para obter recursos para financiar investimentos de longo prazo e, para tanto, elas emitem título, como as debêntures. Adicionalmente, investimentos de menor prazo e necessidades de reforçar o capital de giro podem ser satisfeitos por meio da antecipação créditos a receber, conhecidos como recebíveis, que nesse caso funcionam como lastro em operações de CRA, CRI, FIDC, FIAGRO, entre outros instrumentos. São estes recebíveis que sustentam o pagamento dos rendimentos aos investidores.
Classes de ativos é uma forma de agrupar os diversos títulos e modalidades de investimento cujo principal objetivo é o de segregar riscos semelhantes. A ideia é que cada grupo apresente alta coerência interna em seus comportamentos de risco e retorno, ao mesmo tempo em que os diferencie de forma clara das demais classes. Em resumo, é juntar riscos parecidos em cestos distintos de maneira que cada um conte uma história única.
Existem diferentes agrupamentos de classe, mas três são comuns a qualquer classificação: ações, renda fixa e moedas. Destes três largos troncos surgem ramificações que buscam segregar riscos mais específicos e, assim, nascem subclasses que explicitam níveis cada vez mais detalhados de risco.
Uma dessas subclasses é conhecida como crédito privado, que agrupa instrumentos financeiros de renda fixa que, embora possuam diferentes formas de remuneração, comungam a característica de serem emitidos por empresas privadas. Nessa categoria encontramos o crédito bancário e o chamado de corporativo, ou não bancário. Os casos de banco Master e Raízen são, hoje, os exemplos mais gritantes do tipo de risco a que o investidor está exposto.
O risco de crédito está associado a possibilidade de que o devedor venha a não honrar seu compromisso e, portanto, ele é tanto maior quanto pior for a situação financeira da empresa. Considerando que o investidor pode a qualquer momento adquirir um título de emissão do governo, que tem o poder de emitir moeda e quitar suas obrigações, é natural que os emissores privados precisem oferecer uma taxa de juros maior para atrair e convencer os investidores a aceitar esse risco. Lembrando a célebre frase de Milton Friedman, “não existe almoço de graça”.
O Boletim de Mercado de Capitais da ANBIMA referente ao mês de dezembro último indica que “o mercado de capitais brasileiro encerrou 2025 com recorde histórico de R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, alta de 6,4% ante o ano de 2024 (R$ 788,1 bilhões), distribuídas em 3.034 operações. O desempenho foi impulsionado principalmente pela renda fixa, que novamente concentrou a maior parte das captações e manteve sua predominância com R$ 737,7 bilhões”. Ou seja, mais brasileiros compraram títulos de dívida corporativa em 2025, diretamente ou por meio de fundos de investimento.
Sobre fundos, inclusive, outro boletim da Anbima, agora o de fundos, aponta que os fundos de renda fixa conhecidos como crédito livre, que podem adquirir quaisquer riscos de crédito, alcançaram um PL de quase R$ 900 bilhões em fevereiro, crescimento de 60% nos últimos 2 anos.
É natural e salutar que os investidores incluam o crédito privado em sua alocação de capital, o spread de crédito, no longo prazo agrega à carteira um retorno adicional com um nível de risco mais moderado que outras classes. Contudo, a materialização do risco de crédito, a perda, é tipicamente não linear, por longos períodos parece inexistente, até que a deterioração do ambiente econômico, abrupta ou progressiva, venha a desencadear perdas aqui e acolá e penalizar os investidores.
Há muito o que celebrar nos números do mercado de capitais, mas é preciso permanecer atento. Momentos de crescimento elevados, como o atual, são propícios ao surgimento de problemas relacionados tanto as empresas, como planejamentos malfeitos e execução de projetos deficientes, quanto aos assessores financeiros, por conta de operações mal estruturadas.
O crescimento econômico brasileiro não se pauta pelo aumento da produtividade, a taxa de juros permanece alta há muito tempo, e as empresas precisam de financiamento para navegar neste mar complicado. Elas precisam se financiar, os distribuidores necessitam de títulos para vender e os investidores querem aproveitar as altas taxas de juros. Nesse cenário, nem sempre os interesses estão alinhados.
É preciso estar atento e forte.
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