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17 de setembro de 2026 - 17:12

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Bancos começaram a testar mercado em julho e conseguiram distribuir 62% dos papéis, depois de 4 meses vendendo menos da metade

Depois de quase quatro meses em compasso de espera, o mercado brasileiro de renda fixa corporativa começou a dar os primeiros sinais de melhora depois de um segundo trimestre restritivo, embora de maneira ainda muito restrita e limitada a emissores de menor risco. A expectativa é que essa seja a tônica até o fim do ano, com a possibilidade de os melhores nomes conseguirem alongar os prazos de suas operações.

As emissões somaram R$ 40,1 bilhões em julho, mês em que os bancos voltaram a testar o mercado. Outros R$ 59 bilhões em ofertas estavam em andamento, segundo levantamento da área de pesquisa do ABC Brasil. Considerando apenas as debêntures, foram emitidos R$ 28 bilhões, 40% acima dos R$ 20 bilhões registrados em junho.

Outro sinal de retomada veio da distribuição das ofertas. Em julho, 62% dos papéis foram absorvidos pelos investidores, a primeira vez acima de 60% desde fevereiro. Nos meses anteriores, os bancos haviam ficado com uma parcela maior das emissões em suas carteiras diante da retração da demanda. Em junho a colocação a mercado havia sido de apenas 46%. Em maio, de 42%; em, abril, de 40% e, em março, de 47%.

A recuperação ainda é seletiva e concentrada em grandes empresas e emissores de melhor qualidade de crédito. Isso significa que investidores migraram para esses ativos, no chamado “flight to quality”. “Os [papéis] institucionais e de excelente qualidade estão vendendo bem. As ‘mid’ e ‘high yield’ [empresas de média e alta rentabilidade, porém com mais riscos] estão com dificuldades”, diz uma fonte que preferiu não ser identificada.

A desaceleração do mercado de crédito privado começou em março, após um início de ano aquecido. Uma sequência de eventos corporativos interrompeu o fluxo de captação dos fundos de crédito privado e levou investidores a migrar para ativos mais conservadores, como títulos bancários. Com a demanda reduzida, diversas operações lançadas entre março e abril não foram totalmente absorvidas pelo mercado.

“Os bancos acabaram funcionando como um amortecedor nesse período de nervosismo”, afirma Samy Podlubny, responsável pela área de renda fixa do UBS BB. Segundo ele, durante mais de três meses, as instituições concentraram esforços na distribuição dos papéis e na redução das posições que permaneceram em suas carteiras, o que limitou o lançamento de novas ofertas.

Com boa parte desse estoque já distribuída no mercado secundário e os resgates dos fundos, mais estabilizados, as emissões voltaram a ganhar tração. Uma das operações que marcaram a reabertura da janela foi a da Axia, ex-Eletrobras. A companhia levantou R$ 1 bilhão no início de julho, dos quais 99% foram destinados a fundos e pessoas físicas, segundo dados do sistema de registro de ofertas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Posteriormente, captou mais R$ 2 bilhões em outra oferta, concentrada em fundos. Taesa, ISA Energia Brasil e Copel também emitiram debêntures no mês.

Guilherme Maranhão, diretor de renda fixa do Itaú BBA, afirma que os resgates dos fundos foram acomodados sem maiores rupturas no mercado secundário. Paralelamente, os bancos conseguiram reduzir as posições acumuladas durante o período de menor demanda. “Houve um período de digestão das operações que ficaram nas carteiras das instituições”, diz.

Segundo Maranhão, a recuperação começou a aparecer também nas debêntures incentivadas, segmento que sofreu mais intensamente com a saída de recursos dos fundos e voltou ao radar dos investidores após a reprecificação dos ativos. Operações recentes registraram demanda considerada forte, mas o executivo ressalta que ainda é cedo para afirmar que a janela foi totalmente reaberta. “A amostra ainda é pequena.”

As empresas continuam precisando calibrar preço, tamanho e estrutura das ofertas para atrair investidores, especialmente nos créditos de menor qualidade. Nesse ambiente, parte das captações pode sair com vencimentos mais curtos. “Claro que varia de caso a caso, mas, nesses momentos de volatilidade, é comum que investidores queiram encurtar a ‘duration’ prefiram papéis mais curtos”, afirma Felipe Thut, responsável pela área de renda fixa do Bradesco BBI.

“Os bancos acabaram funcionando como um amortecedor nesse período de nervosismo”

— Samy Podlubny

O nível elevado dos juros também pode levar empresas, sobretudo as que captam recursos para projetos de infraestrutura, a emitir inicialmente dívidas de prazo menor e substituí-las posteriormente por operações mais longas, caso as condições melhorem.

No primeiro semestre, a mudança de humor do investidor e a busca por emissores com a melhor classificação de risco mudaram a cara do crédito privado. Levantamento da Quantum Finance para o Valor mostra que o número de emissores caiu significativamente e que o tamanho médio das operações aumentou.

Cerca de 70% das emissões do período ficaram concentradas nos três primeiros meses do ano – as que já estavam em execução antes do baque causado pelos pedidos de recuperação extrajudicial de Raízen e GPA, dona da rede Pão de Açúcar, em março. E a tendência, avalia Samer Serhan, sócio da JiveMauá, é que o mercado se mantenha extremamente seletivo até o fim do ano. “Não víamos uma busca tão grande por ativos de altíssima qualidade desde 2023 [ano da crise de Americanas]”, afirma.

Segundo ele, emissores com avaliação mais baixa de crédito encontraram mais dificuldade para acessar investidores.

O levantamento da Quantum mostra que houve redução de 34,9% no número de papéis de janeiro a junho, enquanto a quantidade de emissores caiu 16,9%, de 225 para 187. Como consequência, o tamanho médio das operações aumentou 25,9%, para R$ 436,5 milhões, no período.

O caso mais emblemático foi o da Sabesp, que captou R$ 14,7 bilhões no semestre, quase 10% de todo o volume emitido. O montante é praticamente o dobro dos R$ 7,3 bilhões levantados pela Ecovias Rio Minas, maior emissora do mesmo período de 2025. Somente em fevereiro, a Sabesp captou R$ 8,58 bilhões em duas operações atreladas ao IPCA, com vencimentos em 2038 e 2041.

A concentração em grandes empresas veio acompanhada do avanço das debêntures incentivadas, usadas no financiamento de projetos de infraestrutura. Os papéis remunerados pelo IPCA responderam por 44,4% do volume emitido no primeiro semestre, ante 32,7% um ano antes. Em valores, cresceram 11%, de R$ 59,8 bilhões para R$ 66,5 bilhões, na contramão da retração do mercado.

“Operações de infraestrutura tendem a ser maiores e mais estruturadas, coerentes com o financiamento de projetos de escala e longa maturação”, afirma Serhan.

As debêntures atreladas ao DI continuaram na liderança, mas perderam espaço no período. A fatia delas caiu de 59,3% para 51,4%, com o volume recuando 29%, de R$ 108,3 bilhões para R$ 76,9 bilhões. As emissões indexadas ao IPCA foram em média de R$ 679 milhões, praticamente o dobro dos R$ 343 milhões das operações convencionais ligadas ao DI.

A mudança também aparece na distribuição setorial. Energia elétrica, saneamento e transporte e logística responderam, juntos, por 62% do volume captado no semestre. Energia manteve praticamente o mesmo montante do ano anterior, em R$ 52,9 bilhões. Saneamento quase dobrou, de R$ 12 bilhões para R$ 23,7 bilhões, enquanto transporte e logística movimentou R$ 16,9 bilhões.

“Não víamos uma busca tão grande por ativos de altíssima qualidade desde 2023 [ano da crise de Americanas]”

— Samer Serhan

Na direção contrária, as emissões do setor financeiro caíram aproximadamente 73%, de R$ 39,9 bilhões para R$ 10,6 bilhões. O mercado, que em 2025 tinha forte participação conjunta dos setores de energia e financeiro, ficou mais concentrado em infraestrutura e serviços regulados.

Serhan destaca que o grande número de concessões realizadas nos últimos anos, principalmente em transportes e mobilidade urbana, criou novas necessidades de financiamento. Ao mesmo tempo, o BNDES passou a assumir uma parcela maior dos recursos destinados aos projetos, e alguns cronogramas de investimento foram alongados, reduzindo a necessidade imediata de captação.

A maior seletividade também é explicada pelo desencontro entre as taxas aceitas pelas empresas e a remuneração exigida pelos investidores. Bruno Spilberg, gestor sênior de crédito da SPX, afirma que os resgates sofridos pelos fundos reduziram sua capacidade de absorver novas ofertas. Ao mesmo tempo, companhias passaram a adiar operações diante do aumento dos prêmios cobrados pelos compradores. “Tem demanda do lado das empresas para emitir, mas não há apetite dos investidores nas taxas que elas querem”, diz. “Quem pode está segurando emissões. Só os nomes óbvios estão captando.”

Guilherme Almeida, responsável pela área de renda fixa da Suno Research, lembra que, até fevereiro, o mercado trabalhava com uma perspectiva mais favorável para a queda dos juros. A reversão dessa expectativa, a abertura da curva e o aumento da volatilidade fizeram empresas e investidores adotarem maior cautela.

A dispersão das taxas mostra o grau de seletividade. Segundo Almeida, emissores de infraestrutura de primeira linha conseguiram captar a taxas próximas de IPCA mais 6,2% ao ano, enquanto operações de maior risco chegaram a pagar dois dígitos. Entre os papéis ligados ao DI, os adicionais variaram de 0,20 a 13,84 pontos percentuais.

Em julho, os fluxos dos fundos também apresentaram alguma normalização. Os de crédito privado captaram R$ 14,4 bilhões, após uma sequência de retiradas no primeiro semestre. Já os de infraestrutura tiveram resgates líquidos de R$ 1,6 bilhão, abaixo dos R$ 8,7 bilhões de junho.

A melhora dos fluxos e a redução dos estoques dos bancos ajudam a reativar as emissões, mas ainda não significam uma retomada ampla. Pesquisa do ABC Brasil com 88 investidores mostra que 56% esperam crescimento de pelo menos 10% nas emissões de debêntures atreladas ao CDI. Nas incentivadas, 47% projetam avanço nessa magnitude.

Segundo Odilon Costa, que lidera a área de pesquisa do banco, a visão mais construtiva está relacionada à menor expectativa de abertura dos spreads. Entre as debêntures incentivadas, 66% dos entrevistados esperam estabilidade ou fechamento dos prêmios, ante 21% na pesquisa do segundo trimestre.

Apesar da retração das emissões, o mercado secundário continua líquido. Depois de crescer 33,9% em 2025, para R$ 947,4 bilhões, o volume negociado avançou 20,6% no primeiro semestre deste ano, para R$ 494,6 bilhões, segundo a Quantum. Em julho, as negociações somaram R$ 99,5 bilhões, praticamente estáveis em relação a junho, de acordo com o ABC Brasil. “O mercado está saudável ainda, o secundário está girando bem”, afirma Serhan.

A expectativa dos bancos é de normalização gradual das emissões ao longo do segundo semestre, à medida que os investidores recompuserem suas carteiras e as instituições retomarem a originação de operações. Entre as gestoras, porém, predomina uma visão mais cautelosa: enquanto os juros permanecerem elevados e os fundos não recuperarem plenamente a capacidade de captação, a reabertura deverá continuar concentrada nos emissores de melhor risco.

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