
Uma eventual liquidação do Digimais, o banco do bispo Edir Macedo alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira (23), poderá elevar o desembolso do Fundo Garantidor de Crédito com garantias para depositantes para até R$ 60 bilhões este ano.
Até maio, o FGC — que garante até R$ 250 mil em aplicações de CDB em caso de liquidação de um banco — já tinha desembolsado cerca de 93% do total de R$ 51,8 bilhões devidos aos investidores que tinham títulos de renda fixa dos bancos do conglomerado Master (incluindo Willbank e Letsbank) e também do banco Pleno, que pertenceu ao Master.
O Digimais tinha em março R$ 8,4 bilhões em depósitos a prazo, de acordo com o IF Data do Banco Central. Não se sabe ainda quanto disso está elegível a cobertura pelo FGC.
Apesar de não pertencer ao Master, o Digimais operava de modo similar, inflando o patrimônio por meio de uma estrutura de fundos com ativos super faturados. Essa sobrevalorização de ativos permitia captar mais recursos via plataformas de investimento utilizando a garantia do FGC como estratégia de marketing. Assim como o Master, o Digimais também atuava no segmento de consignado para servidores públicos. Além disso, a fraude do Digimais, segundo a PF, foi desenhada pela corretora ID, cujos sócios e gestores têm origem no banco Máxima (nome original do Master).
Também é cedo para saber qual o impacto no patrimônio do FGC e se haverá necessidade de uma recomposição adicional. “É mais um baque no FGC. E a necessidade de antecipar os prêmios de seguro fica mais premente. Tudo vai depender de quanto e quão rápido o FGC conseguirá recuperar”, diz Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV/SP.
“Há muita informação faltando mas, se o FGC tiver que honrar garantias, provavelmente deve recuperar mais do que no caso do Master.” Em média, para cada R$ 100 dado como garantia, o FGC recupera de R$ 40 a R$ 50.
A situação patrimonial do Digimais aparenta ser melhor do que a do Master. “São R$ 3,3 bilhões em títulos de valores mobiliários. Se o volume de ativos inflados ficar nos R$ 670 milhões identificados pela PF, talvez não seja preciso liquidar. Daria para resolver com uma intervenção e ir pagando os depositantes sem precisar do FGC”, diz Schiozer.
Recomposição
No início do ano, os bancos que contribuem mensalmente com o FGC (majoritariamente Itaú, BB, Caixa, Bradesco e Santander) anteciparam 60 parcelas de contribuição, num total de R$ 32 bilhões — recursos que saíram dos depósitos compulsórios. Para 2027 e 2028, os bancos vão antecipar mais 12 parcelas por ano (totalizando cerca de R$ 5,3 bilhões).
Em tese, a operação policial não é empecilho a uma solução de mercado, que passaria pelo BTG, com uma linha de crédito de R$ 5 bilhões do FGC. Esta solução, no entanto, tem ficado cada vez mais remota, com rumores sobre a desistência do BTG. No fim de semana, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota do Digimais, ressaltando que a quebra do banco era uma “possibilidade real”.
Criado nos anos 90 na crise bancária do governo Fernando Henrique, o FGC nasceu para dar garantia aos depositantes. No entanto, desde a crise de 2008, ele assumiu também o papel de fornecedor de liquidez do sistema — papel até então exercido pelo Banco Central, com o redesconto bancário. O redesconto era uma linha de curto prazo dada pelo BC garantida por alguma carteira. No entanto, a solução passou a ser estigmatizada. “Quando um banco recorria ao redesconto, a reputação era afetada, comprometendo a liquidez da instituição”, diz Schiozer.
“O fornecedor de liquidez do sistema deveria ser o BC. Não é comum no mundo o fundo que garante depósito ser o provedor de liquidez. Acho que é um desenho pouco usual o FGC ter de socorrer. Ele fica entre a cruz e a espada. No caso do Master, o FGC ofereceu uma linha, mas com a liquidação, o fundo tomou prejuízo.”
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