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IA no crédito: o que ela faz (e o que ela não faz)

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Redação
08 de novembro de 2026 - 12:12

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A inteligência artificial ajuda a enxergar melhor quem pede crédito. Mas quem decide continua sendo a instituição

Por Ingrid Barth

Passei mais de uma década em bancos, boa parte dela olhando para decisões de crédito. Depois, participei da construção do Open Finance no Brasil e hoje empreendo com inteligência artificial aplicada ao crédito. Nessa trajetória, uma pergunta aparece cada vez mais nas conversas com clientes e parceiros: afinal, a IA vai decidir quem recebe crédito? A minha resposta é não, e acho importante explicar por quê.

A IA é extraordinária em uma coisa: organizar e interpretar um volume de informação que nenhuma pessoa conseguiria analisar sozinha. Ela reúne dados financeiros espalhados em diferentes bancos e formatos, identifica padrões de comportamento, acompanha mudanças ao longo do tempo e transforma tudo isso em indicadores claros. Na prática, o analista de crédito deixa de gastar horas montando planilhas e passa a ter, em minutos, uma visão muito mais completa de quem está do outro lado. Vi isso acontecer de perto num leilão de gado no interior de Minas Gerais, onde a análise que antes dependia de intuição e relacionamento passou a acontecer em tempo real, durante o próprio pregão.

Não por acaso, as instituições financeiras estão adotando a tecnologia. Um levantamento do Bank for International Settlements (BIS) mostra que 16% das instituições consultadas já usavam IA na avaliação de risco de crédito, e outras 19% planejavam adotá-la nos três anos seguintes.

Mas há algo que a IA não faz: ela não define quanto uma instituição deve emprestar, para quem, nem quanto risco está disposta a correr. Essas são escolhas de negócio e cabem a quem responde por elas. Cada instituição tem sua própria política de crédito, com os critérios para aprovar uma operação, os limites de exposição, as condições de cada contrato e as situações em que um caso precisa passar por uma pessoa antes de seguir. Essa política reflete a estratégia, o apetite a risco e a responsabilidade da instituição perante clientes, acionistas e reguladores. Nenhum modelo, por mais sofisticado, substitui isso.

Os próprios padrões internacionais reforçam esse ponto. Os princípios de gestão de risco de crédito publicados pelo Comitê de Basileia em 2025 determinam que cada instituição mantenha uma estratégia de crédito coerente com sua tolerância ao risco, além de políticas próprias para identificar, medir, acompanhar e controlar suas exposições. A responsabilidade continua sendo da instituição, com ou sem IA.

Para mim, usar bem a IA no crédito é ter clareza sobre essa divisão de papéis: a tecnologia amplia a capacidade de análise, e a instituição define as regras e toma a decisão. Quando essa divisão está clara, a IA se torna uma aliada poderosa, que permite decisões mais rápidas, mais bem informadas e mais justas, inclusive para empresas saudáveis que antes ficavam sem crédito simplesmente porque ninguém conseguia enxergar sua realidade financeira. Quando ela se confunde, corre-se o risco de tratar uma ferramenta de análise como se fosse a autoridade responsável pela decisão.

O objetivo nunca foi criar uma tecnologia que “decide tudo sozinha”. É construir um processo em que dados, tecnologia e política de crédito trabalhem juntos, e em que as pessoas certas continuem responsáveis pelas escolhas que importam.

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