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O fim de um ciclo no mercado de crédito

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Valor Econômico
02 de junho de 2026 - 17:12

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Choques externos, juros e liquidez impõem nova disciplina ao crédito privado no Brasil

Há choques econômicos cujos efeitos não se impõem de imediato. Eles se acumulam, atravessam cadeias produtivas, contaminam expectativas e só depois aparecem na atividade, nos preços e no crédito. Foi assim no Brasil com a greve dos caminhoneiros e no mundo com a pandemia. O mesmo ocorre agora, com a deterioração geopolítica no Oriente Médio e seus efeitos sobre energia, logística e custo de capital.

O ponto central é que esses eventos não atingem uma economia em equilíbrio. Incidem sobre um ambiente pressionado por juros elevados, crescimento fraco, compressão de margens e maior seletividade dos investidores. Quando isso acontece, o mercado de crédito é um dos primeiros a revelar a mudança de regime.

No Brasil, esse processo está em curso. Desde o início do aperto monetário, em 2021, a Selic saiu de 2% para 14,75% ao ano. Trata-se de uma mudança radical no custo do dinheiro, com efeitos prolongados sobre empresas e famílias. Ao longo desse período, parte desse encarecimento foi amortecida por estímulos fiscais, expansão do crédito e maior protagonismo do mercado de capitais. Em janelas curtas, essa compensação é compreensível. Quando se prolonga por anos, porém, passa a criar uma sensação de normalidade que não resiste indefinidamente à realidade financeira.

O mercado de capitais cumpriu papel importante nessa travessia. Em 2025, as emissões de crédito privado superaram R$ 700 bilhões, segundo a Anbima. Esse volume ajudou companhias a refinanciar passivos, preservar liquidez e sustentar investimentos mesmo em ambiente monetário adverso. Mas os sinais mais recentes sugerem inflexão. Dados da CVM até março apontam desaceleração na colocação de papéis. O volume do trimestre ficou em torno de R$ 140 bilhões, abaixo dos R$ 229 bilhões observados no trimestre anterior.

O movimento indica um mercado mais exigente, com maior dificuldade de distribuição e menor disposição para absorver riscos. Na prática, algumas empresas voltam a depender mais dos balanços dos grandes bancos. Ao mesmo tempo, a desaceleração da captação dos fundos de crédito privado reforça o diagnóstico de menor liquidez para rolagem de dívidas e novas emissões.

Em ciclos assim, a mudança mais importante não está apenas no volume, mas no preço e na qualidade da demanda. O investidor deixa de perseguir retorno a qualquer custo e volta a distinguir com mais rigor estrutura, garantias, gestão e risco de crédito. Spreads comprimidos por tempo prolongado tendem a reabrir quando o ambiente macroeconômico e corporativo deixa de oferecer conforto.

Os efeitos já começam a aparecer na inadimplência. Dados do Banco Central mostram em 2025 uma inclinação mais acentuada, especialmente entre pessoas físicas e pequenas empresas. Esses segmentos são os primeiros a sentir, com mais intensidade, a combinação de juros altos, crédito mais escasso e perda de fôlego da atividade. Também são os que menos dispõem de instrumentos para alongar passivos ou acessar financiamento em melhores condições.

A piora geopolítica adiciona uma camada extra de incerteza. Choques sobre rotas estratégicas, energia e cadeias globais de suprimento tendem a pressionar custos, reduzir previsibilidade e dificultar a formação de preços. Para o crédito, isso significa menos complacência. Em ambientes de baixa visibilidade, a preferência por liquidez aumenta, o apetite a risco diminui e o custo de capital sobe.

É nesse contexto que se desenha o fim de um longo ciclo de liquidez abundante e spreads estreitos. O ajuste não decorre de um único evento, mas da convergência entre política monetária restritiva, menor impulso fiscal, enfraquecimento das condições de captação e maior aversão a risco. O choque externo funciona menos como causa isolada e mais como catalisador de fragilidades que já vinham se acumulando.

Nada disso significa retrocesso do crédito privado. Ao contrário. O mercado amadureceu, ganhou escala, diversificou instrumentos e ampliou sua relevância no financiamento da economia. O que fica para trás não é o crédito privado em si, mas a fase em que liquidez abundante e compressão de spreads conviviam com relativa indiferença ao risco. A etapa que se abre tende a ser mais disciplinada. E isso não é mau sinal. Mercados de capitais sólidos também se constroem em períodos de seleção mais rigorosa, preços mais realistas e alocação mais criteriosa.

A travessia será mais exigente. Mas o tamanho e a sofisticação alcançados pelo mercado brasileiro de capitais devem ser parte da solução, e não do problema. Se atravessar esse teste com resiliência, o setor terá dado um passo importante para sustentar um novo ciclo de crescimento, menos apoiado em liquidez e mais ancorado em fundamentos.

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