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Os limites da expansão do crédito para as famílias

por: Afonso Bazolli
em: Crédito
fonte: Folha de São Paulo
14 de julho de 2026 - 17:12

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Períodos de forte expansão são seguidos por desaceleração em três a cinco anos

Brasil passou por essa situação no início deste século com crescimento entre 2003 e 2014, e recessão em 2015 e 2016

O crédito é insumo importante para o crescimento de longo prazo, ao financiar investimento, suavizar consumo e aliviar restrições de liquidez. Mas há riscos quando a alavancagem agregada é alta, em especial quando a expansão se dá pelo endividamento das famílias. Diferentemente do crédito às empresas, que pode se converter em investimento e ganhos de produtividade, o crédito às famílias antecipa consumo.

Crescimentos expressivos de endividamento das famílias durante expansões de crédito podem gerar elevação a curto prazo, mas tendem a ser seguidos por crises mais profundas. Aumentos da razão dívida das famílias sobre o PIB preveem, com regularidade, menor crescimento e maior desemprego a médio prazo.

Esse padrão de boom-bust é bem estabelecido: períodos de forte expansão são seguidos por desaceleração em 3 a 5 anos. No boom, a oferta de crédito estimula o consumo, mas não vem acompanhada de melhorias na produtividade ou na renda permanente. A demanda agregada cresce, a capacidade produtiva não.

À medida que o estoque de dívida se acumula, o serviço da dívida pressiona o orçamento doméstico, e as famílias precisam reduzir o consumo para honrar seus compromissos. No bust, a demanda se contrai, e a queda é tanto maior quanto maior a alavancagem prévia. A recessão não é, portanto, um evento exógeno que atinge uma economia estável: é a consequência endógena dos excessos da expansão.

O Brasil já viveu um ciclo dessa natureza. De 2003 a 2014, a razão dívida das famílias sobre o PIB (Produto Interno Bruto) saltou de 10% para 25%, e o estoque real de crédito às pessoas físicas cresceu quase cinco vezes. A expansão atravessou diversas modalidades, como financiamento de veículos, crédito imobiliário e, sobretudo, o consignado, viabilizado pela legislação de 2003. Programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, somados a reformas que facilitaram a recuperação de garantias, ampararam esse movimento.

Os resultados são conhecidos. Em 2015 e 2016, o Brasil viveu a recessão mais severa de sua história recente, com oito trimestres consecutivos de contração do PIB e queda expressiva do consumo. Microdados do Banco Central mostram que os indivíduos que mais aumentaram a razão dívida sobre renda durante o boom foram os que mais reduziram o consumo durante a crise —efeito mais forte quando o endividamento estava em modalidades de juros altos. Estima-se que cada ponto percentual de aumento na razão dívida-renda tenha reduzido o consumo em 1,24 ponto percentual.

O ciclo atual guarda paralelos importantes com aquele. Desde 2019, o saldo do crédito livre cresceu cerca de 75% em termos reais, com modalidades mais caras crescendo a taxas ainda maiores. A razão dívida das famílias sobre o PIB passou de 25% para 35%, e a razão dívida-renda passou de 40% para 50%, o maior valor da série histórica.

Mais preocupante, novos programas vêm dando fôlego adicional à expansão. O consignado para trabalhadores do setor privado —o Crédito do Trabalhador, lançado em 2025— replica em escala maior a fórmula do consignado público que protagonizou parte do boom anterior.

Linhas específicas voltadas para motoristas de aplicativo, financiamento habitacional e microempreendedores ampliam ainda mais o alcance dessa expansão. Em conjunto, essas políticas reforçam um padrão de alavancagem que, como já se sabe, antecede crescimento mais baixo nos anos seguintes.

O Brasil, que precisa elevar produtividade e poupança doméstica para crescer a longo prazo, segue alimentando o consumo presente com endividamento das famílias —sobretudo das mais pobres. O custo dessa escolha não deve demorar a aparecer.

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