
Informação consta em relatório do auditor independente da varejista, a PwC Brasil, publicado em março deste ano, e anexo às demonstrações financeiras da empresa
A Casas Pernambucanas, uma das mais tradicionais redes de varejo do Brasil, apresenta prejuízos repetitivos e um excesso de passivos sobre ativos circulantes no montante de R$ 698 milhões em 2025. Esse cenário indica a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da rede.
Essa informação consta em relatório da auditoria independente da empresa, a PwC Brasil, publicada em março deste ano, e anexo às demonstrações financeiras.
A existência de um volume de passivos superior aos ativos significa que a rede possui um capital circulante negativo nesses R$ 698 milhões, e quando isso ocorre, os recursos não conseguem arcar com os vencimentos de curto prazo.
A companhia tem R$ 1,28 bilhão em vencimentos em 2026, equivalente a cerca da metade dos R$ 2,4 bilhões totais de empréstimos e financiamentos a vencer até 2030, segundo as notas explicativas do balanço de 2025.
Esse quadro afeta a empresa depois que os sobrinhos da maior acionista da companhia, Anita Harley, voltaram ao conselho de administração após acordo de governança em 2024, que acomodou interesses dos sócios. Isso ocorreu após o acidente vascular cerebral sofrido pela Harley, em 2016. Ela era contra a volta dos sobrinhos à administração.
Em entrevista ao Valor, o comando admite dificuldades, mas afirma que os problemas enfrentados são anteriores a 2023. Ainda cita o compromisso dos acionistas, por meio de ações que têm sido tomadas, para reduzir pela metade o capital circulante negativo em 2026.
São dois anos seguidos de incerteza sobre continuidade da operação da Pernambucanas. Isso porque um ano antes, o capital circulante líquido negativo era maior, de cerca de R$ 809 milhões, e a PwC já alertava para o risco, mas agora houve uma deterioração também em termos de dados consolidados.
Ao se considerar todos os negócios do grupo Pernambucanas (além do varejo, a financeira Pefisa e a sua fatia no Hotel Jatiúca), o capital circulante líquido positivo caiu de cerca de R$ 561 milhões em 2024, para R$ 14 milhões em 2025.
Os auditores citam os efeitos dos prejuízos recorrentes na Pernambucanas, que de 2021 para 2022 teve recuo de 45% no lucro para R$ 140 milhões, e desde 2023, entrou no vermelho. No ano passado, as perdas foram de quase R$ 465 milhões, alta de 20%. Desde 2023, o prejuízo subiu 69%.
“O que leva às dificuldades do grupo Pernambucanas hoje é a pasta financeira, e isso está relacionado com o projeto de expansão extremamente agressivo iniciado em 2019”, disse Ricardo Doebeli, CEO da Pernambucanas.
“Entre 2019 e 2023 foram abertas mais de 200 lojas, e hoje a gente conta com 472 lojas. Na verdade, os bancos não financiaram esse crescimento. Foi capital próprio utilizado por meio da desmobilização de ativos físicos, os imóveis, e do capital de giro da própria companhia”, disse ele.
A financeira do grupo entrou na época oferecendo crédito para clientes em locais onde a marca tentava recuperar mercado, como Rio de Janeiro e Nordeste, e isso gerou “grande deficiência financeira”, disse, que foi se acumulando até chegar em 2024, quando começou o processo de reestruturação em andamento.
Além disso, as notas do balanço mostraram que a linha de passivos foi pressionada por reclassificação financeira por quebra de cláusula de contrato com banco. Ocorre que a rede está sujeita a certas cláusulas restritivas de contrato de dívida constante em acordo de empréstimos. As cláusulas incluem a manutenção de certos índices financeiros.
Em 31 de dezembro de 2025, a rede não cumpriu com todos os índices, e desta forma, os passivos atrelados a eles foram reclassificados para o passivo circulante. Isso ocorreu porque a varejista não cumpriu com cláusulas previstas no contrato de financiamento com o Banco do Brasil.
“Em decorrência do não cumprimento das cláusulas, tivemos efeitos colaterais junto a outras captações financeiras, onde os saldos foram reclassificados para o passivo circulante, totalizando R$ 78,2 milhões”, disse a empresa nas notas explicativas do balanço de 2025.
Para tentar mudar esse cenário que faz disparar, junto aos auditores, o risco de continuidade, a empresa precisa melhorar o seu ciclo de caixa financeiro. Para isso, o comando cita medidas em andamento em seu relatório de resultados. O CEO fala em renegociar prazo de recebimento dos fornecedores internacionais, com apoio de novas tradings, e em reduzir em cinco dias o prazo de cobertura de estoques (isso diminui a necessidade de capital de giro). Também quer aumentar o peso do cartão da rede nas vendas.
Ainda menciona aumento da participação do PIX nas vendas, o reperfilamento de dívida bancária por meio de operações estruturadas via mercado de capitais, e redução da antecipação de recebíveis, para reduzir efeito dos juros nas despesas.
Parte dessas ações é comum nos processos de reestruturação das varejista, a questão é como executá-las, na maioria das vezes.
Questionado sobre monetização de ativos da empresa, Doebeli confirma a conclusão da venda da fatia do grupo no Hotel Jatiúca para este ano — o balanço cita expectativa de impacto de R$ 115 milhões com a operação. O ativo estaria para venda desde 2023.
Essas ações somadas, diz ele, têm potencial para reduzir o valor de passivos superior a ativos de R$ 698 milhões em 50% neste ano.
“Estamos buscando caminhos, já temos melhorias. O ano 2026 tem sido mais complicado, é meio uma profecia autorrealizável. Todo mundo lê o balanço das redes, da Marisa, Tok&Stok, GPA, também tem as recuperações extrajudiciais, a Casas Bahia renegociando, o consumidor endividado, as ‘bets’ comendo dinheiro. O ano está mais difícil, e a gente está focado na construção, na transformação”, diz o CEO.
Doebeli diz que há ainda um plano de transformação formado por 433 iniciativas em sete frentes: comercial, lojas, centro de distribuição, escritório central, financeira, jornada do cliente e cultura, gerando potencial agregado estimado superior a R$ 700 milhõe
Entre as medidas, há regras frequentemente aplicadas nos modelos de “back to basic” do setor, como corte de despesas operacionais, melhora na gestão de relacionamento com cliente (com nova plataforma), ampliação na lista de fornecedores, e o que a rede chama de “inteligência de demanda e estoque”.
Sobre esse último aspecto, trata-se de uma reação à gestão nas lojas. Um dos problemas é que a Pernambucanas passou a sofrer com rupturas de produtos nas lojas e precisou implementar um programa para reduzir isso.
Doebeli diz que criou uma “UTI de lojas” com 50 pontos com desempenho abaixo do esperado — a empresa tinha em dezembro 485 pontos. Onze dos 50 foram fechados nos primeiros meses de 2026 e o restante continua sob observação. Além disso, a sede mudou de local em 2025, após décadas na rua da Consolação, em São Paulo.
“Devíamos estar lá há 60 anos, reduzimos custo de aluguel e caiu custo de manutenção em 40% e fomos para a região da Água Branca, zona oeste de São Paulo”, disse.
“Ainda estamos remontando todo o modelo de sourcing, de compras com os fornecedores, abrindo ficha técnica, montando o custo de mão de obra, e já estamos tendo um benefício de 2% a 3% na eficiência de compras. Esse é um exemplo, estamos revisando muita coisa, estamos em reestruturação”, disse.
Outra medida é a limitação do financiamento da rede ao consumidor, a partir de junho, caindo de 10 vezes sem juros para cinco vezes sem juros (no mercado varia de 3 a 6 vezes), o que reduz o custo de capital para a rede, especialmente com taxa Selic alta.
Em termos de dívida total, há vencimentos de R$ 2,4 bilhões entre 2026 e 2030 — sendo a metade em 2026. O índice de alavancagem, porém, está na faixa de 0,4 vezes a relação dívida líquida e Ebitda porque “os bancos saíram da Pernambucanas ao longo dos anos em função do projeto de expansão que eles não acreditavam”, diz o CEO.
Mas o patrimônio líquido caiu quase pela metade de R$ 1,1 bilhão ao fim de 2024 para R$ 663 milhões em 2025, por causa do aumento do prejuízo. Com isso, a relação dívida frente ao patrimônio encostou em cinco vezes.
Nos últimos tempos, a empresa se financia por meio de um FIDC em expansão, que é o fundo de direitos creditórios, e na indústria.
A rede vem dando prejuízo ou o lucro cai há cinco anos, mas o quadro deu sinais mais claros de piora mesmo após 2023. A companhia diz que os impactos na expansão acelerada de lojas respingaram no negócio de três anos para cá.
Em 2023 saiu Sérgio Borriello, após sete anos na varejista, e entrou Marcelo Labuto (ex-Banco do Brasil). Ele ficou menos de um ano, para a entrada de Doebeli, ex-sócio da McKinsey e ex-Galeazzi Associados, em 2024.
Em 2023, no ano da troca, a rede deu o primeiro prejuízo após lucros seguidos desde, pelo menos, 2009, segundo pesquisa do Valor, quando Harley ainda geria a rede.
O prejuízo alcançou R$ 386 milhões em 2024 e subiu para uma perda de R$ 465 milhões no ano passado. Permanece no conselho de administração, liderando o colegiado nesses anos todos, Martin Mitteldorf, sócio da Mov Investimentos e há 13 anos no órgão.
Ainda estão no conselho membros pouco conhecidos no varejo, segundo apurou o Valor. Entre eles, Evandro Luis Rezera, da Rezera Consultoria e Governança Corporativa; Ralf Lundgren, da família Lundgren; Americo da Cunha Filho, ex-Fedex; Carlos Henrique Bandeira de Mello Júnior, conselheiro da ViaCerta; e Wilmar Silva Rodriguez, ex-vice-presidente da JHSF, focada em alta renda.
No “board”, Mitteldorf, além de ter cargo na Mov, é sócio da Órigo Energia e conselheiro da Symbiomics, empresa de biotecnologia.
Em relação ao cenário atual da companhia, e aos imbróglios que os acionistas enfrentam na Justiça, com a batalha pelo testamento de Anita Harley, Doebeli diz que a companhia segue ritos de governança, e que a protegem de questões externas. E ainda que tem sua administração profissionalizada.
Em 2024, quando Harley estava em coma, e o curador da empresa era o seu filho socioafetivo Arthur Miceli (hoje, afastado da curatela por decisão judicial), foi fechado um acerto de interesses, chamado internamente de pacificação, que trouxe os sobrinhos de volta para a mesma mesa de conciliação.
Pelo acordo, oito classes de ações passaram a ter o mesmo poder de voto nas decisões da companhia. “É uma transformação, inclusive, da governança e está relacionada justamente com as dificuldades construídas no passado. Se a expansão tivesse sido exitosa, talvez o acordo de acionistas não tivesse tido a necessidade e a urgência”, diz ele.
“O acordo de acionistas, a nova dinâmica de governança, um novo gestor, um projeto de transformação, é resultado de um problema que foi sendo construído ao redor de uma empresa que não fez a lição de casa entre 2019 e 2023.”
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