
De saída do banco, CEO Mario Leão disse que a trajetória de recuperação permanece firme
O Santander Brasil abriu a temporada de balanços dos grandes bancos com um resultado abaixo do esperado. Apesar de uma sazonalidade típica do primeiro trimestre, que afeta mais fortemente resultados de cartões, por exemplo, a inadimplência subiu e caiu o chamado índice de cobertura, que mede quanto as provisões de crédito cobrem a carteira em atraso. Em seu último balanço antes de deixar o cargo, o presidente-executivo (CEO), Mario Leão, reconheceu que há preocupação com a qualidade de ativos em algumas frentes, mas disse que a trajetória de recuperação permanece firme.
O Santander encerrou o primeiro trimestre com lucro gerencial de R$ 3,788 bilhões, o que representa uma baixa de 7,3% em comparação com o último trimestre de 2025 e de 1,9% ante o mesmo período do ano passado. A projeção dos analistas ouvidos pelo Valor era de lucro de R$ 4,002 bilhões.
O banco terminou março com R$ 705,582 bilhões na carteira de crédito expandida, que inclui empréstimos, financiamentos, avais, fianças e títulos com característica de crédito. O saldo recuou 0,4% ao longo do primeiro trimestre de 2026 e cresceu 3,4% na comparação com março de 2025. A carteira de pessoa física caiu 1,3% no trimestre e 1,1% em um ano, a R$ 265,3 bilhões. Em empresas, houve queda de 0,2% e alta de 4,3%, na mesma base de comparação, a R$ 344,9 bilhões.
“O lucro líquido tem uma queda no trimestre contra trimestre. Obviamente, o primeiro trimestre tem sempre uma sazonalidade em relação ao quarto trimestre. A forma como a gente está construindo o portfólio e evoluindo o portfólio, a gente está bastante satisfeito, na verdade”, avaliou Leão. “Apesar do número menor, também é um número que tem uma qualidade bastante boa.”
O CEO explicou que uma forma de ver essa evolução é pelo resultado antes de impostos. “O lucro cai basicamente porque eu estou pagando mais imposto, então é positivo estar pagando imposto, é sinal de que a franquia está crescendo”, disse.
A margem financeira bruta do Santander foi de R$ 15,815 bilhões no primeiro trimestre. O montante é 3,1% maior em comparação com último trimestre, mas 0,7% menor que o registrado no mesmo intervalo de 2025. A margem com clientes foi de R$ 16,584 bilhões, com queda trimestral de 1,4% e alta anual de 4,8%. Já a margem de operações com o mercado ficou negativa em R$ 771 milhões, 48,1% melhor do que o registrado no trimestre imediatamente anterior e revertendo um saldo positivo de R$ 97 milhões no primeiro trimestre de 2025.
Enquanto isso, a inadimplência subiu para 3,3% em março, de 3,1% em dezembro e de 2,8% em março do ano passado. A taxa de calotes de pessoa física ficou em 4,9%, de 4,6% e 4,3%. No caso de pessoas jurídicas, o indicador subiu para 1,8%, de 1,6% e 1,3%.
Segundo Leão, o fato de o juro básico da economia brasileira cair menos do que o esperado anteriormente — em função da guerra no Irã — não deve ter um efeito “dramático” na inadimplência do banco, embora na margem não seja positivo. “Juro mais alto não sei se muda dramaticamente nossa PDD [provisões para devedores duvidosos], mas na margem não é bom.” A PDD somou R$ 6,344 bilhões no primeiro trimestre, o que significa um aumento de 3,9% em três meses e queda de 0,7% em 12 meses.
O executivo comentou ainda que, em grandes casos do atacado, o banco tem monitorado de perto a situação e está bem provisionado. Mas admitiu que a situação pode evoluir. “Nos próximos trimestres podemos ou não ter de fazer reforço nas provisões em alguns nomes específicos.”
O CEO avalia que a qualidade dos ativos do banco é positiva, entretanto, há alguns portfólios não tão bons. O executivo afirmou que hoje o banco tem preocupação com agronegócio, pequenas e médias empresas (PMEs) e parte do portfólio de cartões.
No agro, ele apontou que o banco tem feito uma redução de risco e não deve renovar operações com alguns perfis de clientes. “Nosso agro é muito colateralizado, fizemos pouco crédito ‘clean’. A maior parte tem alienação fiduciária, que tipicamente conseguimos executar em até 12 meses, e outra parte tem hipoteca, que leva um pouco mais de tempo.” Ele disse ainda que a carteira agro deve ficar “plana” ou até cair um pouco este ano.
Analistas destacam que os resultados do Santander vieram abaixo do esperado no primeiro trimestre e que o cenário é complexo à frente. “Interpretamos o resultado positivo do lucro antes de impostos com reservas, dada a contínua deterioração nas tendências de qualidade dos ativos e as provisões que não corresponderam à formação dos créditos em estágio 3 [de pior qualidade]”, diz o Safra.
Na avaliação do Citi, a maior formação de inadimplência e a menor cobertura refletiram o cenário macroeconômico mais desafiador, parcialmente compensado pela composição da carteira. “Em resumo, um trimestre fraco, mas de certa forma esperado, para uma empresa que vem ficando para trás e não está se beneficiando dos fluxos passivos [que estão indo para a bolsa]”, destaca o J.P. Morgan.
CADASTRE-SE no Blog Televendas & Cobrança e receba semanalmente por e-mail nosso Newsletter com os principais artigos, vagas, notícias do mercado, além de concorrer a prêmios mensais.
