
Taxas elevadas de juros e desconhecimento do empresariado a respeito de linhas de crédito mais baratas contribuem para fuga do crédito bancário, de acordo com estudo da consultoria tributária Tax Group
Quase sete em cada dez médias e grandes empresas vêm se financiando exclusivamente com capital próprio, segundo levantamento da consultoria tributária Tax Group. As taxas elevadas de juros e o desconhecimento do empresariado a respeito de linhas de crédito mais baratas contribuem para a fuga do crédito bancário, de acordo com o estudo.
O levantamento foi realizado com 297 companhias em maio de 2026. Deste grupo, 68,6% disseram que se financiam exclusivamente com capital próprio. Outros 25,4% afirmaram que usam somente o crédito bancário. Há 5,9% que adotam uma estrutura mista de financiamento. O levantamento não considera o mercado de capitais.
Atualmente em 14,25% ao ano, a taxa básica de juros está acima de 10% ao ano desde fevereiro de 2022. Isso contribui para o maior custo financeiro em modalidades de crédito às pessoas jurídicas.
“[A busca por financiamento próprio] é uma característica de muita prudência, uma racionalidade bem defensiva”, diz Luis Wulff, CEO do Tax Group.
Wulff afirma que um dos motivos para a fuga do crédito bancário é o desconhecimento de empresários a respeito de modalidades de financiamento, como os créditos incentivados, com juros mais baratos. Há também oportunidades de crédito internacional com juros menores. “Hoje existem mais de 100 linhas disponíveis, e poucas empresas as conhecem para poder entender a tomada de crédito”, diz.
O desconhecimento pode estar atrelado ao perfil decisório das empresas. Nas companhias financiadas por capital próprio, as decisões financeiras estão concentradas em sócios e diretores (38,3%). Já nas empresas com estrutura mista de financiamento, 85,7% das decisões são na média gestão – empresas “maduras” no conhecimento das linhas de crédito disponíveis, segundo Wulff.
“As empresas que não têm capital de terceiros e que têm só capital próprio do acionista são as que mais desconhecem o acesso a crédito no Brasil”, diz. “E as empresas que têm uma gestão já mais avançada, profissionalizada e com acesso ao mercado de capitais são aquelas que possuem processos de captação de recursos. Portanto, as áreas gerenciais financeiras dessas empresas acessam e decidem [a respeito do crédito], porque já [isso] está no seu processo operacional.”
A indústria é o setor que mais sofre com os juros altos, segundo a pesquisa. O levantamento mostra que 41,2% das empresas industriais pagam taxas acima de 10% ao ano. Na média geral de todos os setores, 29,6% pagam taxas de juros acima de 10% ao ano.
Nelson Rocha Augusto, presidente do Banco Ribeirão Preto (BRP) e economista, afirma que a economia brasileira vive uma disfuncionalidade, com política monetária restritiva e, ao mesmo tempo, mercado de trabalho aquecido. A conjuntura internacional, influenciada pela guerra no Oriente Médio e seus impactos sobre o preço do petróleo, tornou o cenário ainda mais complexo.
“Mesmo com o acordo [entre EUA e Irã] abrindo o Estreito de Ormuz, a perspectiva passa a ser de uma redução importante do preço do petróleo e todas as outras matérias primas, mas a taxa de juros muito alta praticada no Brasil é em função de o preço ter subido bastante neste primeiro semestre”, disse.
Ele também destaca a situação do comércio de médio porte. Segundo o economista, o segmento tem mais dificuldade para tomar recursos e investir na expansão de lojas. De acordo com Augusto, neste caso as margens de lucro costumam ser mais modestas, já que as empresas são muito dependentes, por exemplo, de mão de obra.
Wulff, do Tax Group, mostra ainda preocupação com o impacto do “split payment” sobre o financiamento das empresas. O sistema, que é parte da reforma tributária em implantação, repassará automaticamente os tributos para o Fisco, o que não acontece atualmente.
“Algumas companhias poderão ter o ressarcimento do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em até 180 dias”, diz, referindo-se aos tributos criados pela reforma. “Isso gera um impacto de, pelo menos, mais dois meses de Selic como custo financeiro.”
Procurado, o Ministério da Fazenda não se pronunciou.
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