
Por: Gilberto Guimarães
Trabalho há três anos em uma empresa conhecida, onde ocupo um cargo de supervisão. Gosto da companhia, mas tenho me irritado cada vez mais com os “privilégios da chefia”. Embora considere meu salário razoável e tenha benefícios básicos, existe um verdadeiro abismo que separa o alto escalão do resto da empresa. Enquanto todos somos pressionados para fazer mais com menos e temos que conviver com ameaças de demissão, a empresa oferece carro, celular, seminários no exterior, passagens aéreas e outras regalias para todos os diretores. Além disso, somente eles recebem bônus em dinheiro no fim do ano. É possível ser dedicado em uma empresa assim? O que fazer?
Supervisor, 29 anos
Resposta:
Sempre é possível estar motivado e ser produtivo. Motivação é fator intrínseco. É normal também ficar abatido quando fazemos esse tipo de comparação. Isso porque associamos nosso valor ao da nossa remuneração. Nos aborrecemos e achamos injusto quando alguém que parece não merecer ganha mais que nós. Além disso, associamos o valor que merecemos ganhar por nosso trabalho com o esforço e a disponibilidade de tempo que dedicamos à empresa. Mas não somos pagos por isso.
Qual é então o valor do seu trabalho? Quanto você deve ganhar? Para tentar responder essa pergunta temos que, antes, estabelecer alguns conceitos. O primeiro é o de produto. Não se trata apenas de um bem ou de um serviço que tenha algum valor intrínseco. Um produto é a solução do problema de alguém, ou o atendimento a uma necessidade.
E qual o valor de uma solução? Por exemplo, dois relógios, sendo que um é simples e comum, enquanto o outro é chique e de grife, resolvem o mesmo problema. Mostram a hora certa. No entanto, o valor pago pelo relógio chique e de grife é muito maior, pois ele representa algo mais, atende a necessidade de se mostrar status e poder.
Nós, enquanto profissionais, também somos percebidos não apenas como pessoas, mas também como a solução para o problema de alguém, o atendimento de alguma necessidade. Quem nos contrata acredita que temos ou somos a solução para o problema dele. Se o problema que sabemos resolver, todo mundo também sabe, a solução que propomos tem pouco valor, e o pagamento é baixo. Isso, é claro, também ocorre no sentido contrário.
Essa é a fórmula de avaliação de valor, de remuneração. Ela acaba disfarçada e transformada no mundo empresarial em função de interferências ideológicas, pela presença do Estado que impõe regras, impostos e leis. Por conta disso, as empresas acabam criando outros mecanismos para reconhecer, recompensar e remunerar na medida adequada os profissionais que propõem soluções e conseguem lucros e resultados positivos.
Essa remuneração adicional, os benefícios e os bônus, servem para reequilibrar o valor e para mobilizar as pessoas. Portanto, o valor do trabalho está associado ao valor que a empresa estabelece para a qualidade da solução conseguida, e a remuneração final será a somatória de todas as formas de retribuição.
Além de ter uma sólida gestão do desempenho, a empresa precisa criar sistemas de reconhecimento e recompensa dos comportamentos adequados, e construir uma cultura de desempenho eficaz e produtiva. Deve-se reconhecer e agradecer o esforço, mas só premiar e remunerar quando o resultado for alcançado. Fácil de falar, difícil de fazer.
No seu caso, acredito que você deve tentar estabelecer e divulgar os seus resultados concretos que tenham valor para a empresa. Melhore a qualidade e a percepção de sua solução. Não basta ser melhor, é preciso ser percebido como melhor.
O fato de pessoas ganharem mais que você é um fator motivador. Ou seja, se a empresa remunera melhor pelos resultados, você também poderá ser diretor e receber uma boa remuneração. Por outro lado, se esses diretores que recebem mais não trazem bons resultados, a empresa não tem critérios adequados. Nesse caso, a melhor solução é sair em busca de novos desafios.
Gilberto Guimarães é diretor da GG Consulting e professor
Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.
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