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O que fazer se me tratam como eterno iniciante?

por: Afonso Bazolli
em: Gestão
fonte: Valor Econômico
29 de agosto de 2016 - 18:00

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Por: Gilberto Guimarães

Sou formado em direito há dois anos e atuo há quatro no departamento jurídico de uma empresa de médio porte, onde entrei como estagiário. Por já ter um tempo razoável de casa e familiaridade com as atividades exercidas, de vez em quando acabo recebendo tarefas que, teoricamente, deveriam ser realizadas por funcionários mais graduados – que acabam apenas assinando o material produzido por mim. No início, entendia isso como um sinal de confiança e uma oportunidade de desenvolvimento. No entanto, essa situação começou a me irritar. Além de ter que trabalhar além do meu horário para dar conta de tudo, percebo que isso não se traduz em reconhecimento ou perspectivas de promoção. Sou tratado como um talento que pode assumir responsabilidades acima do meu cargo apenas quando eles precisam. No resto do tempo, sou apenas o iniciante que tem muito a aprender antes de poder reivindicar qualquer coisa. O que devo fazer?

Advogado, 25 anos

Resposta:

Infelizmente esse é um triste retrato de uma situação cada vez mais frequente. Tem crescido a falta de respeito e reconhecimento, sobretudo ao trabalho mais criativo e intelectual. Isso tem acontecido não só com jovens iniciantes, mas também com profissionais mais vividos e experientes. Muita disputa e muita pressa para subir, associadas com avaliações superficiais e mal elaboradas, geram essas “escorregadas éticas” e desvios comportamentais.

Muitos “chefes” acham que o subordinado trabalha para eles e não para a empresa. Assim, assumem como deles o trabalho executado pelo outro. Eles se aproveitam do “espírito de não confrontação” característico das pessoas em grupos organizados. Contam também com o medo que o subordinado prejudicado tem de perder o emprego. Como consolação, se é que isso vale, pode-se dizer que só se apropriam de seu trabalho por que ele tem valor e qualidade.

Pela lógica, em princípio, em algum momento a justiça prevalecerá, pois, em longo prazo, a competência e a ética acabam sempre sendo os melhores critérios de avaliação. Lembre-se de que carreira é maratona, não é corrida de tiro curto. Largar na frente e disparar nos primeiros metros não garante a vitória.

Na carreira, assim como na maratona, o que vale é o bom planejamento, o preparo, a confiança, o otimismo e a persistência. É fundamental também a capacidade de resistir à dor e ao sofrimento. A injustiça dói, incomoda e sempre parece que não se vai conseguir suportá-la. No entanto, com o passar do tempo, as dores são incorporadas e assumidas como parte do processo. É o que Jung chamava de individuação, maturidade, ampliação da consciência.

Desenvolver resiliência é a forma e o caminho. Aprender a suportar, a se adaptar e a superar as diferenças, perdas e dificuldades. Só o tempo ensina a se ter essa “tranquilidade das velhas tropas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que se deve ficar quieto e aceitar. É preciso começar a agir de maneira diferente e criar formas de atuação que dificultem, ou até mesmo impeçam, essa apropriação e esse plágio.

Uma boa tática é procurar trabalhar em grupo, ou seja, fazer outras pessoas participarem de tudo aquilo que se faz. Deve-se consultar e comentar com pares, superiores e subordinados os assuntos e as ideias, fazendo-os perceber no que você está trabalhando. Dessa forma, além do seu “chefe”, muita gente vai saber o que você faz e fez.

Quando o trabalho tiver terminado, é mais provável que você seja lembrado como parte importante do que foi realizado. Assim, fica mais difícil um chefe mal-intencionado omitir sua participação. Outro meio de se evitar essas apropriações indevidas é procurar apresentar resultados intermediários, entregando cópias e pedindo às pessoas que leiam essa “primeira versão” e a devolvam com sugestões. Isso demonstra humildade e espírito de grupo, e muita gente se sentirá participante do resultado – o que atrai simpatia e apoio.

Se nada disso funcionar e esses “escorregões morais” continuarem – assim como as avaliações inadequadas -, o melhor caminho é buscar outro grupo que tenha critérios éticos e morais coerentes com os seus.

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