
Leitura é de Bruno Fernandes, chefe global de estudos macroeconômicos da casa, que, em visita recente a São Paulo, falou com o Valor
A incerteza provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã atinge as empresas e a economia global em um momento mais delicado. Se em 2022 havia espaço para ajuda de governos e as empresas desfrutavam de uma demanda aquecida na retomada após a pandemia, o cenário atual é mais frágil, na visão da Coface, seguradora francesa de crédito. Neste ambiente, chama a atenção o nível atual de insolvências corporativas nos EUA, que segue crescendo e já está 20% acima dos patamares de 2019. A leitura é de Bruno Fernandes, chefe global de estudos macroeconômicos da Coface, que, em visita recente a São Paulo, falou com o Valor.
Segundo o economista, o conflito no Oriente Médio ocorre em um momento de menor dinamismo na economia global. “Na Europa, a recuperação já parece cada vez mais frágil. O principal motor deveria ser a Alemanha, que precisaria aumentar os gastos — e, de fato, houve algum relaxamento fiscal nesse sentido. O problema é que a Alemanha também está entre os países mais afetados pela crise energética, assim como a Itália, devido à dependência de gás. E, como a recuperação europeia normalmente depende do dinamismo alemão, isso torna o cenário mais desafiador”, aponta.
Nos Estados Unidos, o quadro também levanta dúvidas, segundo Fernandes. A previsão de crescimento da Coface para os EUA foi revisada para cerca de 2,1% neste ano, um número que, isoladamente, parece razoável. “Mas ele perde força quando analisado em detalhe. Grande parte desse crescimento está concentrada em setores ligados à inteligência artificial, enquanto outros setores enfrentam dificuldades”, aponta.
Um sinal disso, segundo o executivo da Coface, é o aumento das insolvências corporativas, que já estão cerca de 20% acima dos níveis de 2019 há três trimestres consecutivos, de acordo com um índice proprietário da seguradora.
“Muitas empresas já estão sendo pressionadas pelas tarifas, que são pagas por importadores americanos e nem sempre conseguem ser repassadas aos preços finais. Além disso, mesmo com estímulos relevantes — como cortes de impostos durante a administração de Donald Trump — o crescimento não acelerou de forma significativa. O déficit público permanece elevado, entre 6% e 7% do PIB. Assim, tanto o impulso fiscal quanto o avanço da inteligência artificial acabam mascarando fragilidades mais amplas, especialmente no mercado de trabalho”, conclui.
Isso sugere que, apesar de números aparentemente sólidos, a dinâmica de crescimento é mais fraca do que parece, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
Para o economista, ao contrário do choque de oferta de 2022, com a guerra da Ucrânia, as empresas parecem ter menos capacidade de absorver choques e repassar custos. “Havia mais liquidez e uma posição financeira mais confortável, em grande parte devido aos apoios governamentais recebidos nesse período. Hoje, pelo menos nas economias americana e europeia, as empresas — excetuando alguns setores ligados à inteligência artificial — não têm a mesma capacidade. Os níveis de tesouraria estão mais baixos, o que reduz a margem para absorver choques de custos”, avalia.
Isso, na sua visão, torna o cenário mais delicado. Quanto mais tempo a crise durar, maior a probabilidade de as empresas tentarem repassar esses custos aos preços. “A questão central é saber se conseguirão fazê-lo. Essa é, para mim, a principal incógnita para avaliar o risco inflacionário. Ainda assim, é bastante provável que haja algum repasse, já que a capacidade de absorção hoje é bem menor do que em 2022”, nota.
Outro ponto de incerteza é a resposta dos governos. O economista argumenta que, até o momento, os níveis de apoio governamental são significativamente inferiores aos observados entre 2020 e 2022. “Isso se deve, em parte, à menor capacidade fiscal e também à tentativa de avaliar se o choque será de fato temporário. Há receio de ampliar déficits e dívida pública caso o apoio seja excessivo e o choque se dissipe rapidamente. Por isso, não vemos, por enquanto, uma resposta com a mesma intensidade do passado”, diz Fernandes.
Se, por um lado, há alívio relacionado a uma piora rápida na trajetória da dívida pública das economias, a cautela também implica um risco maior de inadimplência por parte das empresas. “Ainda assim, se a crise se prolongar, é possível que os governos acabem reagindo de forma mais contundente. Por ora, contudo, prevalece uma postura de cautela, aguardando maior clareza sobre a duração e a intensidade do choque”, diz.
Apesar do cenário de maior cautela, a Coface destaca que os mercados seguem trabalhando com uma estimativa otimista relacionada à duração e os efeitos do conflito. “O mercado, em certa medida, continua bastante otimista — caso contrário, os preços do petróleo estariam bem mais elevados. Pelas nossas estimativas, faltariam entre 12 e 13 milhões de barris por dia no mercado. Se essa escassez se confirmasse de forma duradoura, haveria um problema significativo na oferta e os preços estariam muito acima dos níveis atuais”, afirma.
Neste momento, contudo, o economista não espera uma resposta imediata do Banco Central Europeu (BCE), ainda que os mercados tenham passado a trabalhar com a expectativa de aperto na zona do euro. Nos EUA, o Fed deve se manter em compasso de espera até reunir mais informações sobre o conflito, mas pode retomar os cortes caso a guerra acabe logo.
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