
Mesmo com ciclo de cortes na Selic, taxa média de juros interrompeu sequência de três meses de queda e subiu 0,2 ponto em agosto, para 32,3% ao ano
A inadimplência do consumidor pessoa física em operações de crédito bancário, tema que dominou a campanha eleitoral neste ano, bateu novo recorde em agosto, segundo o Banco Central (BC). A taxa que representa o atraso nos pagamentos superior a 90 dias subiu para 8% em agosto no crédito com recursos livres, modalidade que tem taxas livremente pactuadas pelo mercado, ante 7,8% em julho, até então o maior patamar. Como um todo, a inadimplência do consumidor saltou de 5,8% para 6% de julho para agosto, também recorde.
Os números mostram que, mesmo com o recente ciclo de cortes na Selic, a taxa média de juros da economia interrompeu uma sequência de três meses de queda e subiu 0,2 ponto percentual em agosto, para 32,3% ao ano — um reflexo do crescimento de linhas mais arriscadas, como rotativo dos cartões de crédito e parcelamentos do cartão.
O crescimento da inadimplência e dos juros cobrados acontece em um momento em que o governo federal, às vésperas da eleição presidencial, lança uma terceira edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas dos consumidores. O Desenrola Brasil 3.0 prevê a aquisição e a reestruturação de dívidas com atraso entre dois e quatro anos e meio. Duas outras edições já tinham sido lançadas desde 2023. O foco agora será nas dívidas de cartão de crédito, nas modalidades parcelada e rotativa, e de crédito pessoal sem consignação em folha de até R$ 10 mil. A estimativa é que até 15 milhões de pessoas poderão ser beneficiadas, renegociando até R$ 150 bilhões em dívidas.
A composição dos dados revela que os brasileiros têm recorrido a modalidades mais caras e emergenciais de empréstimos. O caso mais alarmante é do rotativo do cartão, quando a pessoa não faz o pagamento integral da fatura. Entre as operações com recursos livres para pessoa física, o estoque de crédito do rotativo do cartão foi o que mais subiu em agosto contra julho, com alta de 4,8%.
A taxa média de juros dessa modalidade subiu para 444,9% ao ano em agosto, acréscimo mensal de 8,7 pontos percentuais. A inadimplência do rotativo do cartão também subiu de 65,5% em julho para 66,2% em agosto nesta operação, patamar recorde.
Já a alta do juro médio entre todas as modalidades de crédito foi puxada pelas operações com recursos livres (alta de 0,8 ponto), totalizando 48,5% ao ano, e pelas contratadas por pessoas físicas (alta de 0,7 ponto), para 38,2% anuais.
O BC também observou encarecimento dos juros cobrados no parcelado do cartão de crédito, que é a modalidade que divide em prestações mensais fixas o valor da dívida. Os juros saltaram de 189,3% em julho para 192,1% ao ano em agosto, a segunda opção de crédito mais cara do mercado.
No caso da inadimplência, quando considerados somente os contratos de pessoas físicas negociados com recursos livres no mercado, que englobam o rotativo e o parcelado do cartão de crédito, o indicador aumentou de 7,1% para 8% no mesmo período.
No crédito pessoal consignado para trabalhadores do setor privado, a taxa subiu de 10% para 10,6%. A inadimplência no crédito pessoal não consignado aumentou de 10,6% para 11% no período. Nas operações com o cheque especial, o percentual caiu de 16,31% para 15,34% nessa comparação.
A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, diz que, apesar de o mercado de trabalho estar aquecido e a inflação seguir em queda, a renda da população “não é completamente suficiente para bancar as despesas”.
“Tem muita gente ocupada, mas a população na média recebe pouco”, diz. “[As despesas com] alimentação, saúde, moradia e despesas habitacionais subiram muito nos últimos anos, com custo de vida elevado para as faixa de renda mais baixa.”
Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, diz que os dados de inadimplência mostram como o fato de a taxa Selic ter ficado por tempo prolongado em 15% ao ano (de junho de 2025 a março de 2026) colocou pressão no orçamento das famílias. Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano.
“Isso acaba acendendo em alerta em relação ao quão moderada vai ser a desaceleração econômica daqui para frente, porque os juros altos podem gerar interrupção brusca da roda [da economia] girando, com pessoas destinando parte dos salários para pagamento dos juros”, afirma.
Roberto Luis Troster, coordenador do Centro de Estudos Fipe do Endividamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), destaca que o endividamento vem crescendo desde 2021, tanto com “Selic baixa” quanto com “Selic alta”, desemprego nas mínimas históricas e atividade econômica em expansão.
O próprio BC também prometeu para os próximos meses medidas para lidar com o endividamento em linhas caras, como cartão de crédito e empréstimo não consignado.
“Se não tiver medidas macroprudenciais, dificilmente essas pessoas vão conseguir escapar desse ciclo. É importante que a gente crie medidas preventivas, de transparência, que criem consciência no processo de contratação dessas linhas de crédito por uma questão de proteção, de cidadania financeira”, disse o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, em entrevista na semana passada.
O endividamento das famílias, representado pelo percentual entre o saldo das dívidas e a renda acumulada em 12 meses, subiu a 49,9% em julho, alta mensal de 0,2 ponto e de 1,1 ponto em 12 meses. Já o comprometimento de renda (percentual entre o valor médio estimado para o pagamento da dívida e a renda média apurada) ficou estável em julho em comparação com junho, em 28,7%. Mas aumentou 1,4 ponto no acumulado de 1 ano.
O estoque de crédito no Sistema Financeiro Nacional (SFN) subiu 0,5% entre julho e agosto, para R$ 7,398 bilhões. A alta foi puxada pelo saldo das operações direcionadas (crescimento de 0,8%) e pelas pessoas físicas (também alta de 0,8%).
Procurados, o Ministério da Fazenda e o BC não comentaram.
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