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02 de agosto de 2026 - 12:12

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A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) alerta empresários do setor sobre como proceder em casos de funcionários viciados em apostas online

O que explica o crescimento das bets no Brasil?

Em tempos de Copa do Mundo, a discussão sobre bets (apostas online) está aumentando ainda mais. Seja pela publicidade em transmissões de jogos, seja por quanto isso afeta o dia a dia de quem joga e de quem convive com apostadores. Nos bares e restaurantes, isso não é diferente.

Gabriel Pinheiro, líder executivo da Abrasel SP (Associação Brasileira do setor), conta que a situação nestes ambientes ficou ainda mais grave em tempos de Copa do Mundo. “É um momento de mobilização em torno do esporte, com um aumento natural do engajamento, combinado com a rotina intensificada de trabalho no nosso setor para atender ao fluxo de clientes. Isso criou o cenário ideal para uma ação preventiva de gestão de pessoas”.

Pensando nisso, a associação elaborou uma cartilha com cuidados para os empresários do setor. Nela, o empreendedor é orientado a como identificar sinais de dependência e a como apoiar trabalhadores antes que isso se torne um problema para a saúde financeira, emocional e para a produtividade.

“O objetivo é permitir que as lideranças de salão e cozinha consigam identificar precocemente qualquer sinal de desequilíbrio financeiro ou comportamental, oferecendo o suporte necessário e garantindo a estabilidade da operação”, explica.

Nomeada como “Apostas na Copa – Como proteger sua equipe durante o Mundial”, a cartilha joga luz sobre sinais de alerta, divididos em quatro grupos: financeiro, comportamental, no trabalho e social.

Os sinais financeiros são: “pedidos frequentes de adiantamento salarial; empréstimos recorrentes entre colegas; e relatos constantes de dificuldades financeiras e dívidas”.

No Gusta Gastrobar, Débora Montuan os identificou no motoboy fixo da casa. “Ele pedia para não pagar por dia, mas em alguns momentos solicitava o pagamento da diária”, segundo ela “sem dúvidas” por precisar de dinheiro por causa de apostas.

Já o auxiliar de cozinha, “ficava nervoso porque não permitíamos o uso de celular durante o expediente. Daí, toda hora ele ia ao banheiro, onde ficavam os armários, para mexer”. Isso é um dos sinais comportamentais, que incluem “uso excessivo do celular durante o expediente; ansiedade relacionada aos resultados dos jogos; e agitação ou preocupação excessiva em dias de partidas”.

A irritabilidade também é um problema a se atentar. Socialmente, é possível identificar “isolamento dos colegas; irritabilidade; e reações desproporcionais a situações rotineiras”. No trabalho, “queda de desempenho sem motivo aparente; erros incomuns; e faltas e atrasos recorrentes” também são alertas.

No Guinza Sushi, de Mauricio Nishimori, também já é possível identificar que colaboradores tanto do salão quanto do balcão de sushi apostam. “Eu ouço bastante um falando que ganhou determinada quantia, outro que apostou tanto, mas, normalmente, escuto que alguém apostou 10 reais, perdeu e parou por aí, tem um certo autocontrole”, conta o dono.

Outros tipos de jogos também são um problema

Mauricio Nishimori ainda não observou vício em bets no seu corpo de funcionários, mas outro jogo de azar consumiu um de seus funcionários. “Um funcionário que está conosco há três meses tinha problema com caça-níqueis, todo dia 20 – quando recebia o salário – sumia dois dias, ficava incomunicável, não aparecia e, de repente, voltava”.

Ele ainda diz que o vício já foi um problema na sua brigada, mas “era com álcool”, agora, as apostas e jogos de azar que estão chamando a sua atenção. Problemas de dívidas com agiota foram identificados tanto pelo dono do Guinza, quanto pela do Gusta Gastrobar.

‘A estabilidade pessoal do colaborador impacta diretamente o ambiente de trabalho’

Nos últimos tempos, a associação vem observando uma “preocupação crescente com a saúde financeira e o bem-estar das equipes. O setor de bares e restaurantes já enfrenta desafios estruturais severos de retenção de talentos e rotatividade de mão-de-obra. Diante disso, os gestores perceberam que qualquer fator externo que comprometa a estabilidade pessoal do colaborador impacta diretamente o ambiente de trabalho”, conta Gabriel Pinheiro.

Mauricio Nishimori diz que, “apesar de não ter observado ainda casos de vício em bets, fico em alerta por saber que funcionários meus apostam online”. E completa: “a gente tem que ajudar as pessoas que estão precisando de ajuda, ainda mais um colaborador que é muito bom, cujo único defeito é o jogo”.

Identificado o problema, o que fazer?

Antes mesmo de a cartilha existir, preocupado, Mauricio Nishimori recorreu à Abrasel para pedir orientações. Eles sugeriram quatro caminhos para o empregador repassar ao funcionário: teleatendimento pelo SUS – programa de telemedicina feito pelo Ministério da Saúde -, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde (UBSs), ambulatórios universitários e Jogadores Anônimos – irmandade que realiza reuniões gratuitas, com dinâmica semelhante aos Alcoólicos Anônimos.

No novo material, para além de onde buscar ajuda, também orientam quanto à abordagem. As dicas são:

“Escolher um momento adequado para a conversa, longe do pico de trabalho e em ambiente reservado”;

“Falar sobre fatos observados, e não sobre julgamentos pessoais”;

“Demonstrar preocupação genuína com o bem-estar do colaborador”

“Evitar críticas ou comentários sobre o dinheiro gasto em apostas”;

“Deixar claro que o emprego não está em risco por buscar ajuda”;

“Apresentar canais de atendimento e acompanhamento”.

‘O meu maior concorrente hoje são as bets’: o que profissionais do meio dizem?

O empresário Facundo Guerra, do Formosa Hi-Fi e outros, publicou um vídeo nas redes sociais sobre a relação entre o consumo de álcool e as apostas. “O meu maior concorrente hoje são as bets”, declara em vídeo.

“Os brasileiros consomem tanto álcool quanto bets no Brasil. Então, não é a noite que está mudando, é o brasileiro que está adoecido, trocando um vício – o álcool – pelo outro. O povo está endividado, quebrado, desesperado, apostando em bets e tem muito pouco tempo para sair e se divertir, para tomar drinque gourmetizado. A geração Z, que a gente tanto fala, é justamente o público-alvo das bets.”

Lucas Corazza, por sua vez, colocou-se contrário às publicidades excessivas. “Devia ter uma forma da gente bloquear bets. A gente deveria poder escolher não ver anúncios, porque eles são um problema social enorme. Eu gostaria que, além de bloquear as pessoas que falam sobre isso, bloquear as notícias que vem dessas pessoas”, diz.

“Bets: não assino, não anuncio, não corroboro. Para mim, é um lixo”, conclui Corazza.

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