
No começo deste ano, o Brasil se deparou com um cenário desafiador e sem precedentes: 81,7 milhões de cidadãos inadimplentes. Este recorde histórico, que representa quase metade da população adulta com CPF negativado segundo a Serasa, não é apenas um número, mas um sinal inequívoco de que a gestão de crédito no país atingiu um novo patamar de complexidade. Aqueles que, como eu, acompanham o mercado há mais tempo, se lembrarão de outros períodos de estresse. Contudo, o momento atual difere por sua composição e persistência, mesclando maior inclusão financeira, digitalização da originação e um endividamento familiar estruturalmente elevado.
Não estamos diante de uma oscilação cíclica tradicional, mas de um novo patamar de risco agregado. A elasticidade da inadimplência frente a juros e renda parece ter aumentado. O sistema de crédito ganhou profundidade e capilaridade, mas a capacidade de monitoramento e gestão dinâmica não acompanhou essa evolução. Em outras palavras, a dívida não é apenas maior em volume; ela reflete comprometimentos estruturais.
Essa realidade é multifacetada. A política monetária restritiva elevou o custo do crédito, pressionando famílias com pouca folga financeira. A desaceleração econômica, por sua vez, reduziu a previsibilidade de renda. Soma-se a isso a expansão da oferta de crédito pós-pandemia e um comportamento de consumo mais propenso ao endividamento, por vezes incentivado por políticas de complemento de renda que geraram uma falsa sensação de capacidade.
Contudo, o vetor mais crítico e estrutural que emerge é a assimetria de informação. Ainda dependemos excessivamente de modelos estáticos, que funcionam como “fotografias” de um momento, enquanto o risco é inerentemente dinâmico. Essa dissonância entre a velocidade do risco e a velocidade da decisão é um amplificador exponencial da inadimplência que observamos hoje.
Essa dinâmica redefine as premissas da gestão de crédito. O risco sistêmico está mais elevado, exigindo que precificação, limites e estratégias de acompanhamento sejam urgentemente revisados. O perigo não reside apenas no inadimplente evidente, mas no cliente que, embora ainda honre seus compromissos, já exibe sinais de deterioração em seu comportamento, seja pelo aumento da utilização de crédito ou por outros indícios indiretos de estresse financeiro. Muitas carteiras, ao se basearem em históricos recentes ou modelos que não incorporam dados em tempo real, subestimam sua real exposição.
Monitoramento contínuo é a chave
As interdependências amplificam o desafio. As pequenas e médias empresas (PMEs) sentem o impacto imediatamente, dada sua menor capacidade de acesso a capital. Grandes empresas podem ter o risco diluído, mas ele se esconde nas cadeias produtivas, onde fornecedores e parceiros funcionam como canais de propagação. É um risco menos visível, mas mais perigoso, exigindo mais do que a simples identificação, mas um tempo de resposta e adaptação ágeis. Setores como varejo e construção civil continuam sensíveis, mas o verdadeiro risco está nas cadeias longas, onde os sinais são difusos e os indicadores tradicionais reagem tardiamente.
A análise na concessão, embora fundamental, deixou de ser suficiente. O risco não é estático; ele evolui com variáveis macroeconômicas, comportamento do cliente e sua estrutura financeira. O monitoramento contínuo é a chave para capturar essas variações antes que se convertam em inadimplência. Isso nos move de uma gestão reativa para uma preditiva, permitindo ajustar limites, redefinir relacionamentos e mitigar perdas proativamente.
Embora tenhamos avanços tecnológicos e dados abundantes, ainda há uma lacuna na integração desses elementos com processos e cultura. Instituições com estruturas fragmentadas – onde concessão, monitoramento e cobrança não dialogam eficientemente – perdem a oportunidade de uma gestão preditiva. É imperativo integrar essas etapas, automatizar decisões e cultivar uma cultura orientada a dados. A mudança é conceitual: abandonar a lógica de gestão baseada em eventos por uma baseada em tendências e sinais antecipados.
A principal recomendação é clara, mas demanda disciplina: não baseie decisões apenas no histórico, mas na trajetória. Não é mais sobre um cenário, mas sobre uma narrativa dinâmica – cada vez mais rápida, mais próxima do centro de decisão, e cada vez mais dependente do cruzamento de dados não padronizados. Este é o desafio que devemos enfrentar.
O diferencial competitivo não residirá na rapidez da reação à inadimplência, mas na capacidade de identificar padrões de deterioração antes que se materializem. No complexo cenário atual, quem antecipa preserva sua margem; quem apenas reage, inevitavelmente, gerencia perdas. A tecnologia é nossa maior aliada nessa jornada de reinvenção.
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