
Nos últimos anos, tirou a unidade mexicana da bolsa local e se desfez de boa parte da sua fatia na subsidiária polonesa. Assim, sobraram basicamente Brasil e Chile com filiais negociadas em bolsa
Após anos de especulações, o espanhol Santander vai finalmente “tirar” a subsidiária brasileira da bolsa. A oferta de troca de ações não é obrigatória, então pode ser que restem alguns investidores com o papel do banco brasileiro, mas a transação anunciada hoje é, na prática, a crônica de uma morte anunciada.
O Santander sempre foi muito ativo em abrir — e fechar — o capital de subsidiárias pelo mundo, tanto que ganhou o apelido de “banco trader”. Nos últimos anos, tirou a unidade mexicana da bolsa local e se desfez de boa parte da sua fatia na subsidiária polonesa. Assim, sobraram basicamente Brasil e Chile com filiais negociadas em bolsa.
Com uma recuperação firme nos últimos anos, a matriz conseguiu uma elevada rentabilidade e excesso de capital, o que lhe deu mais flexibilidade para gerir suas subsidiárias, sem depender de aumento de capital via mercado. Assim, neste ano integrou o banco britânico TSB, que comprou por 2,65 bilhões de libras, e anunciou em fevereiro a compra da americana Webster Financial por US$ 12,2 bilhões.
Também em fevereiro, durante reunião trienal com investidores, a presidente executiva, Ana Botín, falou sobre as perspectivas para o banco e ficou claro que o Brasil não estava entre as prioridades. Ela destacou as perspectivas de crescimento nos Estados Unidos e Reino Unido, dizendo que a fatia da receita do grupo em moedas fortes iria crescer, ou seja, mercados emergentes devem perder protagonismo. Anos atrás, o Brasil chegou a ser o principal mercado do Santander, superando o Reino Unido e mesmo a Espanha.
Em um relatório recente, a Genial lembrou que o Santander Brasil é negociado a 8,5 vezes o preço/lucro e 1,16 vez o preço/valor patrimonial, abaixo dos múltiplos da holding. O Santander Espanha tem múltiplos de 9,3 vezes o preço/lucro e 1,05 vez o preço/valor patrimonial, o que torna um aumento da fatia da matriz na subsidiária interessante. O UBS BB também fez comentários semelhantes, destacando o diferencial de valor entre os papéis da matriz e da subsidiária. “Quando olhamos para o diferencial de ‘valuation’ entre os dois bancos, ‘vis a vis’ o que aconteceu no passado, não descartamos uma ‘tender offer’ [oferta pública de aquisição]”, disseram.
Sinais de que a unidade brasileira estava passando por importantes mudanças vinham se acumulando nos últimos meses. Em dezembro, foi anunciado que o vice-presidente financeiro, Gustavo Alejo, seria substituído pelo espanhol Carlos Muñiz — que, inclusive, fez comentários bem francos a analistas ontem sobre as perspectivas duras para o Santander Brasil, durante divulgação dos resultados do segundo trimestre.
Além disso, em março foi anunciada a troca do CEO, com a saída de Mario Leão e a chegada de Gilson Finkelsztain. O executivo tomou posse no dia 1º de julho. Na ocasião, a nomeação de um CEO brasileiro, e não espanhol, gerou um certo alívio ao trazer a sensação de que a possível saída da bolsa tinha se tornado mais distante. Como visto hoje, não foi isso que aconteceu. Não deixa de ser irônico que, até o mês passado, Finkelsztain fosse CEO da B3, que agora perderá um nome de peso.
Botín esteve diversas vezes no Brasil nos últimos anos, a mais recente delas em abril, quando o Santander lançou a pedra fundamental de sua nova sede no país. “Este projeto é uma demonstração clara da nossa confiança no Brasil e no seu futuro. O país é um dos pilares estruturais do grupo e um dos nossos principais polos globais de inovação”, disse ela na ocasião.
O fato de a matriz espanhola estar pagando 1,9 bilhão de euros (quase R$ 11,1 bilhões) por 10% da unidade brasileira pode ser visto por dois prismas. De um lado, mostra o interesse dos europeus no ativo, mas de outro, ressalta os desafios da subsidiária e tira da bolsa local um player importante.
O Santander chegou ao varejo brasileiro em 1982 e nas décadas seguintes fez algumas aquisições, como do Banco Real, embora a mais importante delas tenha sido a do Banespa, em 2000. O plano era estar entre as maiores instituições do país, o que conseguiu, mesmo nunca tendo chegado muito perto dos líderes privados, Itaú e Bradesco. A listagem na bolsa brasileira ocorreu em 2009.
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