
Alguns dos principais segmentos dessa indústria passaram por distorções de preço ou merecem atenção especial quanto à tomada de risco
O mercado de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC) cresceu substancialmente nos últimos anos. Segundo a Anbima, o patrimônio líquido da classe atingiu cerca de R$ 800 bilhões em julho de 2026, quase quatro vezes o volume de 2019. A classe tem caído no gosto dos investidores, com rentabilidade historicamente superior às alternativas no crédito e a outras classes de fundos, como multimercados e ações.
Há oportunidades, mas é preciso cautela: muito dinheiro entrou nos FIDC justamente quando o risco de crédito sobe na economia, após anos de Selic acima de 10% ao ano. Alguns dos principais segmentos dessa indústria passaram por distorções de preço ou merecem atenção especial quanto à tomada de risco excessiva.
Multi-cedente, multi-sacado
A indústria cresceu muito em um ambiente de juros altos e recuperações judiciais em recordes históricos, atraindo muitos novos entrantes nos últimos anos, inclusive ex-funcionários de bancos e consultorias de crédito, particularmente gerentes comerciais, que passaram a estruturar seus próprios FIDC. Isso gerou uma competição severa pelos melhores clientes no desconto de duplicatas, reduzindo os spreads da indústria.
O caminho, muitas vezes, tem sido criar soluções de crédito mais sofisticadas, como operações mais longas via Nota Comercial ou CCB, o que aumenta o prazo médio das carteiras e o tíquete médio. Isso exige um processo de aprovação mais complexo, com maior domínio sobre formalização, execução e gestão de garantias, para o qual muitos ainda não estão preparados.
Consignado público
A classe sofre desde 2025 com questionamentos de devedores e do poder público, que não reconhecem os descontos ou consideram as taxas abusivas, particularmente no cartão consignado. Há também quem alegue ter tomado um empréstimo simples, em vez de contratar uma operação de cartão, com descontos que supostamente nunca acabam. Além disso, o ágio praticado nas cessões de cartão consignado ao FIDC tem sido bastante alto, chegando a 50% ou mais.
Em tese, isso faz sentido para o FIDC: se o crédito tem taxa de juros de 4,0% ao mês, um ágio de 50% resulta numa taxa de retorno de cerca de 2,5% ao mês para o fundo. Esse patamar, dada a baixa inadimplência histórica desse tipo de carteira, ainda faz sentido econômico, desde que o crédito não seja liquidado antecipadamente pelo devedor ao valor de face nem contestado judicialmente, o que pode gerar repactuação das taxas ou nulidade dos contratos.
Consignado CLT
Lançado em meados de 2025, muitos credores, apostando na eficácia do pagamento via desconto em folha e no recebimento de garantias, concederam bastante crédito a devedores de alto risco, inclusive negativados. No entanto, o produto ainda enfrenta desafios operacionais relevantes, relacionados ao registro dos descontos pelo empregador (escrituração), operacionalização de garantias, dificuldade de manter os descontos na folha após troca de emprego pelo devedor, além de mudanças regulatórias constantes.
Além disso, correspondentes bancários que perderam originação no consignado INSS e no saque-aniversário do FGTS migraram em peso para o CLT, muitos passando também a atuar como credores, estabelecendo políticas de crédito e realizando a cobrança e gestão da carteira, e usando o FIDC como instrumento de captação.
Ampliar esse escopo, porém, não é tarefa fácil: exige habilidades, processos e tecnologia que não eram necessários na atuação como correspondente bancário. Quem investiu cedo nessas frentes, com cautela na formação da carteira, tende a ter operações mais sustentáveis.
Crédito é cíclico, e correções são naturais de tempos em tempos. É possível que, com um eventual arrefecimento da economia em 2027, pós-ciclo eleitoral, a inadimplência das carteiras se acelere. No entanto, o mercado de FIDC já atravessou outros momentos difíceis, como a crise de 2015-2017 e a pandemia de covid-19, saindo maior e entregando rentabilidade aos investidores.
Esse mercado está cada vez mais resiliente, com progressos claros na regulação e no arcabouço tecnológico, que avançou bastante nos últimos anos com o apoio de ferramentas de inteligência artificial. Os FIDC vieram para ficar na carteira dos investidores e seguirão se consolidando como alternativa de financiamento para empresas e pessoas físicas, contribuindo para um crédito cada vez mais barato e acessível.
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