
Por: Diego Viana
Os livros “Freakonomics” (2005) e “Superfreakonomics” (2009) fizeram um sucesso enorme no mundo todo por aplicar à vida cotidiana ideias originadas na microeconomia. Um dos autores, o economista Steven D. Levitt, professor em Chicago, foi discípulo do célebre Gary Becker, morto em maio. O outro autor é o jornalista Stephen J. Dubner, que fez carreira no “New York Times” e é responsável pelo tom coloquial da série, que tornou acessíveis ao público amplo as ideias dos economistas, normalmente expressas em linguagem espinhosa, se não incompreensível. Neste ano, a dupla retornou à série “freak” com um terceiro livro, de cujo título a referência à economia evaporou, resultando em “Pense Como Um Freak”.
O sumiço não é casual. De certo ponto de vista, o terceiro livro da série tem uma ambição muito maior, apresentando-se, sempre com um toque de humor, como um desses guias práticos que ensinam a “pensar fora da caixa”, ser inventivo, encontrar soluções inusitadas para problemas do dia a dia – ou problemas que, não sendo corriqueiros, possam parecer insolúveis a 99% das pessoas. Mas, de outro ponto de vista, “Pense Como Um Freak” deixa a impressão de que a abordagem dos autores já disse tudo que tinha a dizer.
Os nove capítulos do livro relatam, em tom de historieta, passagens vividas por gente que driblou situações ou facilitou sua vida graças a atitudes que, com toda precisão, poderiam ser definidas como “inusitadas” ou “inesperadas”. O diagnóstico dos autores é sempre o mesmo: a pessoa em questão “pensou como um freak”. A inventividade alcança também o uso do idioma. Se, na origem, “freak” designa uma aberração, aqui toma o lugar de termos mais usuais na linguagem do marketing: criativo, imaginativo, ousado.
Nesse sentido inflacionado, “freak” permite “pensar de maneira mais inteligente sobre quase tudo”, diz o subtítulo. Se David Lee Roth, primeiro vocalista do Van Halen, concebeu uma estratégia astuciosa para verificar a seriedade dos promotores de shows, usando apenas um item de contrato e uma travessa de balas “M&M”, ele “pensou como um xfreak”. Se o recordista de um concurso de ingestão de cachorros-quentes conseguiu suas marcas graças ao fato de ter tratado o certame como um objeto a estudar – em outras palavras, ele se preparou -, é porque “pensou como um freak”. É fácil imaginar que o leitor, ou a leitora, já “pensou como um freak” algumas vezes na vida, nem que seja tentando abrir uma lata de conserva sem abridor, ou então ao encontrar um jeito de trocar uma fralda e usar o telefone ao mesmo tempo.
O livro é introduzido com o comentário de que os volumes anteriores da série, com o sucesso que fizeram, provocaram uma avalanche de consultas sobre todo e qualquer tema. “Era como se tivéssemos um software único e exclusivo – um fórceps Freakonomics, talvez – a ser aplicado ao organismo político para extrair alguma sabedoria esquecida”, escrevem os autores, logo no quarto parágrafo, e arrematam: “Não seria nada mau se fosse verdade!”
Na falta do fórceps, “Pense Como Um Freak” se apropria de sabedorias (ou, antes, sacadas) bastante lembradas, carimbando nelas um apelido jovial (“freak”). O mote pode ser encontrado no tradicional princípio econômico de que “incentivos são a pedra angular da vida moderna”. Outros três princípios são citados: “saber o que medir e como fazê-lo pode tornar o mundo menos complicado”; “correlação não é o mesmo que causalidade” e “o senso comum muitas vezes está errado”. O que esses princípios compartilham, além de estarem na mesma página do livro, é serem expressão do mais corriqueiro senso comum.
Cá e lá, a inspiração que a série “freak” tirava da teoria microeconômica reaparece. Às vezes, de modo realmente “freak”, e não no sentido que a dupla propõe. Um deles conseguiu demonstrar que o “freak” precisa ser um “mestre dos incentivos” usando como cobaia a própria filha: conseguiu fazê-la ir sozinha ao banheiro oferecendo-lhe, à moda David Lee Roth, M&Ms. A consequência óbvia de que a menina passou a regular sua bexiga para maximizar a remuneração em glicose não causou grande efeito sobre o pai “freak”. Ao contrário, ele se orgulhou de sua esperteza (sua “freakidade”?) e da rapidez com que a garota se transformou no agente maximizador dos modelos econômicos.
O exemplo mais candente das limitações do modelo “freak”, embora menos dramático que a instrumentalização de uma criança, surge na figura de David Cameron, o primeiro-ministro britânico conservador. Tocado pela fama dos primeiros volumes da série de Levitt e Dubner, quis encontrar neles alguma luz sobre como poderia recuperar a economia da terra da rainha. Julgando-se particularmente astutos, os autores recomendaram uma reforma do Serviço Nacional de Saúde (NHS), provavelmente o maior orgulho público dos ingleses depois da Segunda Guerra. Afinal, “globalmente, ele constitui uma parte qualquer da economia”.
Para ilustrar seu raciocínio, a dupla comparou o NHS ao mercado de automóveis, como “se todo mundo pudesse ir a uma concessionária quando bem entendesse, para escolher um novo modelo de carro e voltar para casa ao volante, sem qualquer custo”. Confrontado com a comparação absurda, em que uma estratégia de coesão social de longo prazo é posta, sem mais, no mesmo pé de um bem de consumo supérfluo, eis a reação do político britânico: “Ele não disse nada. O sorriso não saiu de seu rosto, mas abandonou seus olhos. (…) Apertou rapidamente nossas mãos e saiu em busca de gente menos ridícula com quem se reunir”.
Seguros de sua própria condição de “freak”, os autores atribuíram o desinteresse de Cameron a causas emocionais (seu filho doente, que foi atendido pelo NHS) e políticas (o sistema de saúde é, afinal, um orgulho do país, defendido a unhas e dentes até por Margaret Thatcher). Outra explicação pode estar nos princípios enunciados em “Pense Como Um Freak”: se incentivos são a pedra angular da vida moderna, o líder britânico talvez tenha preferido aplicar o tempo escasso de que dispõe – e a escassez é um conceito econômico que não aparece na lista – com sugestões mais ancoradas na realidade e menos em jogos de palavras.
“Pense Como um Freak”
Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner. Tradução: Clovis Marques. Editora: Record. 252 págs., R$ 42,00
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